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sexta-feira, 24 de abril de 2009

A última era da humanidade

Não há mais mistérios. Não há mais injustiças. Não há mais medos. O que poderia sobrar em tal cenário?

Esta história se passa numa época que sofre uma curiosa indefinição - quando se olha sob um prisma atemporal. É o futuro mais futuro que todos os outros, pois a todos os outros pode chamar de passado. Mas ao mesmo tempo, é o presente mais presente que todos os outros - já que não existe melhor definição para uma era tão duradoura e imutável.

A última era da humanidade inicia-se com a nanotecnologia - que nada mais é que a matéria moldada a partir de seus blocos básicos. Em apenas algumas décadas, a civilização viu a fome, as guerras, as doenças, a necessidade do trabalho e até mesmo a mortalidade desaparecerem. Que restava, então?

Os mistérios e as artes, disseram alguns.

Mas logo caíram por terra também os mistérios. Viagens no tempo, a velocidade da luz, a mente humana - todos eles. Levou-se mais algumas décadas, mas a todos foi dada pelo menos uma das seguintes certezas:
1) a certeza sobre uma explicação;
2) a certeza de que não havia uma explicação;
3) a certeza de que uma explicação não poderia ser encontrada, à época ou num futuro próximo.

Daí sobraram as artes. As artes miraculosas que todos então podiam construir graças à nanotecnologia - seja uma pirâmide hexagonal, seja um robô na forma de um dragão, seja um polvo com leões em seus tentáculos. As artes não exatamente morreram, mas justamente por todas as possibilidades serem espremidas, não havia mais atrativo.

Que restava, então?
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Éon meditou por um segundo. Precisava de uma interpretação elaborada de sua época, partida de um ser humano do século 20 depois de Cristo.

Mais um segundo passado e começou a gesticular no ar, envolto por sua roupa preta colada ao corpo, e que brilhava como ébano.

As projeções holográficas ao seu redor voltaram a se mexer. Em breve, seu filme estaria pronto.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Trodonte - Mitologia [parte 2]

Após a Dominação de Ordox sobre Caox, inicia-se a Segunda Era da Criação.
Da união de Lithos (a terra) e Piros (o fogo), nasceram as primeiras estrelas: a Lua (cujas chamas trepidavam no início dos tempos, ao contrário do que os trodontes podem ver hoje) e o Sol. As estrelas nada mais são que grandes esferas de terra com chamas colossais, capazes de aquecer e iluminar mesmo o mais longínquo ponto. Ambas viviam em torno de Ordox e de seu irmão dorminado, Caox.
Lithos e Piros uniram-se milhares de vezes mais e geraram as milhares de estrelas fixas no firmamento, e até hoje repetem este ato. Entretanto, apenas às primogênitas, a Lua e o Sol, foi dado o privilégio de se aproximar de Ordox e Caox.
Além da união com Piros, Lithos também uniu-se com Aeros (o ar) e Hidros (a água) e criou Galflag, ou o Tríplice Híbrido. Entretanto, Galflag era fraco, e morreu logo após seu nascimento. Aeros, Hidros e Lithos, sem desistir, uniram-se novamente e recriaram o híbrido milhões de vezes, mas o resultado era o mesmo. Só quando foi colocado sobre o crânio de Ordox é que Galflag pôde sobreviver.
Galflag é o próprio planeta Terra, e seu nascimento e crescimento somente sobre o crânio de Ordox representam a necessidade de desenvolvimento, que só o último é capaz de satisfazer. Com o passar do tempo, Galflag moldou-se e tomou a forma da cabeça de seu hóspede, como um elmo.
Com Galflag repousando sobre o crânio Ordox, inicia-se a Terceira Era da Criação.
De Galflag brotou Halana, que moldou a primeira forma de vida - tornando-se, pois, a Moldadora da Vida. A primeira forma de vida era única e sublime.
Entediada, Halana gerou Ailamina e Eatnalpa, e incubiu-lhes a tarefa de alterar a vida por ela mesma criada. Ailamina e Eatnalpa moldaram a vida e criaram, respectivamente, o primeiro animal e a primeira planta.
Mas Halana não se deu por satisfeita. A primeira planta e o primeiro animal, assim como a primeira forma de vida, tinham formas únicas e sublimes. Halana pediu ajuda aos deuses primordiais, Lithos e Hidros. Convidou-os a alterar essas formas de vida como bem entendessem, e então surgiram a primeira planta aquática, a primeira planta terrestre, o primeiro animal aquático e o primeiro animal terrestre.
Entretanto, novamente, essas formas de vida era únicas e invariáveis. Ailamina e Eatnalpa, então, geraram inúmeros filhos unindo-se com Lithos, Hidros e até mesmo Aeros, que eram incumbidos de alterar essas formas de vida como bem quisessem. Esses filhos também geravam seus próprios filhos, que continuavam este mesmo trabalho. E, com cada novo deus moldando a vida à sua maneira, surgiram as diferentes facetas da mesma, presentes até hoje: os pinheiros, os sapos, as samabaias, os tiranossauros, e assim por diante.
Dezenas de gerações de deuses já haviam moldado a vida, quando nasceu Tarod, o deus dos trodontes. Diante de milhões de formas de vida já existentes, Tarod modificou levemente um dinossauro, mas foi essa modificação que o tornou exatamente igual a Ordox.
Ordox, então, transmitiu uma ínfima parte de sua consciência para esta criatura, idêntica a si. E então surgiu a primeira criatura inteligente, capaz de criar e se desenvolver.
Começou então a Quarta Era da Criação, na qual se desenvolve a civilização trodonte.

sábado, 22 de novembro de 2008

Trodonte - Mitologia

No nada infinito, sem começo nem fim, flutua Agox. Imóvel, o mesmo tem a forma de um saurópode negro. É eterno, mas não por ser imortal. Agox transcende a vida, a morte e o próprio tempo.

Agox representa a inexistência possível e impossível. Os sonhos, o futuro e tudo que possa ser inventado ou um dia existir residem nele.
Sobre as escamas de Agox, minúsculo em comparação, caminha seu irmão Gox, também um saurópode solidamente negro. A diferença de grandeza é tremenda, tal que o último vaga nos sulcos das escamas do primeiro, como se estas formassem vales grandiosos. A grande caminhada de Gox sobre seu irmão não tem começo ou fim. Esporadicamente, Gox arranca um naco de carne de seu irmão, engolindo-o rapidamente.
Gox representa o universo, e tudo aquilo que existe. A Caminhada de Gox representa o contínuo do tempo, enquanto que os caminhos que o dinossauro escolhe nos sulcos das escamas de seu irmão representam todas as possibilidades. O ato de arrancar partes de seu irmão representa a renovação das coisas reais, com a matéria do irreal.
Há tempos incalculáveis, nasceram por brotamento e em suas costas os dois primogênitos de Gox: Ordox e Caox. Ambos tinham, a princípio, formas de prossaurópodes. Ordox, porém, escolheu mudar sua forma para a de um trodonte (muito antes da existência dos trodontes). Enquanto isso, Caox escolheu regredir à forma de um saurópode.

Ordox é a ordem, o progresso e o desenvolvimento de todas as coisas. Caox é a desordem, a destruição e a involução de todas as coisas, mas também pode ser interpretado como a constância.

Após os primogênitos, Gox gerou, também por brotamento, mais quatro prossaurópodes. Eram estes os quatro elementos primordiais: Piros (o fogo), Lithos (a terra), Aeros (o ar), e Hidros (a água).

Os seis irmãos vivem nas costas de Gox, o qual não cessa sua caminhada.

Desde o nascimento conjunto, os irmãos primogênitos Ordox e Caox se completavam. Ordox criava seres, sensações, monumentos e outras tantas coisas fabulosas e impensáveis por qualquer trodonte da época moderna (mas nunca imprevistas por Agox, que na verdade era a fonte de todas essas coisas). Caox, por sua vez, tinha a tarefa inata de destruí-las, uma por uma, reduzindo-as ao nada como se nunca tivessem existido. Os irmãos permaneciam neste ciclo, aparentemente perfeito e equilibrado.

Porém, num dado momento, Ordox convenceu-se que, na verdade, não havia um equilíbrio. Que, na realidade, havia a constância do ciclo construção-destruição em si. Decidido, dominou seu irmão, imobilizando-o e prendendo-o ao chão.

Desde que Ordox imobilizou Caox, os dois permanecem praticamente parados. O tempo sem se mexer fez com que Ordox, o único com os pés no chão, criasse raízes que penetraram fundo nas costas de Gox. E foi isso que possibilitou, a princípio, o desenvolvimento do planeta, da vida e da civilização trodonte.

[continua]

PS.: Me desculpem pelos nomes ridículos, não tive tempo (ou saco) pra procurar (ou pensar em) nomes legais. Mas fica aí a idéia.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Sem pobreza e, ainda, com liberdade


Após a queda do Muro de Berlim, seguiu-se uma década em que alguns poderiam declarar o seguinte: "A humanidade finalmente está unida e em paz; podemos nos concentrar nos problemas que temos como civilização".
Claro que essa linha de pensamento não durou muito, dado os ataques de 11 de setembro - até hoje, as manchetes sobre o terrorismo não deixam os jornais. Mas o sentimento de unidade da humanidade, mesmo que intermitente, prevalesce. Talvez sintamos que somos capazes, agora, de resolver nossos problemas universais.
Dentre tantos problemas que temos, sempre prevalescerá o da pobreza no mundo. É, e talvez por muito tempo continue a ser, o primeiro da lista.
O que gera a pobreza? Os recursos produzidos pela humanidade hoje, graças aos avanços técnicos e científicos, são muito superiores àqueles produzidos há um século. Entretanto, essas riquezas permanecem muito desigualmente distribuídas, fazendo com que uma grande parcela da população fique abaixo da linha da pobreza.
Uma solução possível para o problema seria dividir tudo de maneira absolutamente igual, entre todos. Entretanto, surge uma nova questão: o velho conflito da vida contra a liberdade. No caso, a liberdade de enriquecer.
Vida e liberdade são dois direitos que entram diversas vezes em conflito. As questões do aborto e da "segurança vigiada" ilustram bem isso. Embora possa parecer muito materialista (e é a segunda vez que digo isso este mês), devemos nos perguntar se estamos dispostos a abrir mão de nossa liberdade de enriquecer, em prol do direto à vida de todos, quando decidimos por essa opção.
Pessoalmente, acredito que há uma maneira de agradar tanto a gregos quanto a troianos. Somos privilegiados de viver numa época em que, talvez, a educação seja nosso principal meio de produzir riqueza. Se dermos educação a cada ser humano de maneira justa, estaremos permitindo que cada um tenha suas oportunidades de produzir o suficiente para sobreviver e, se assim quiser, também enriquecer.
Temos que ser o mais produtivos possíveis. No caso específico do Brasil, temos que elevar novamente o sistema público de educação ao nível que tínhamos há 40 anos. Não podemos aceitar nada menor do que a eficiência máxima: por exemplo, terras não podem ficar paradas, sem produzir. As atividades que se mostram mais produtivas para a sociedade devem ser incentivadas. Sempre menciono uma comparação que cabe agora, do Brasil com o Japão: o primeiro possui 8% de seus formandos engenheiros, enquanto o segundo, 25%. E há MUITO trabalho a se fazer no campo. Trabalho que só traz benefícios para a sociedade como um todo.
Desonestidade e incompetência são os verdadeiros luxos aos quais não podemos nos submeter, se quisermos acabar com o problema da pobreza.
E então passaremos para o próximo item da lista: o meio ambiente.

sábado, 6 de setembro de 2008

Trodonte - Capítulo 5


Zauros, provavelmente, era o nome mais comum que um indivíduo poderia ter na época da imponente civilização trodonte. Dentre os milhares de dinossauros cuja alcunha era essa, estava Zauros Raptori.

Zauros Raptori era um trodonte com escamas em grande parte marrons, e em razoável parte verdes. O brilho dessa derme denotava seus 16 anos de idade, completados não fazia um mês. Seu porte era esguio; seus músculos, nem muito grandes para que fosse considerado um brutamontes, nem muito pequenos de forma que não fosse chamado para carregar um grande peso.

O jovem se vestia, como a maioria de seus semelhantes, com roupas de couro de outros dinossauros, estes bestas grandiosas. As peles de pterossauros como o Pteranodon e pequenos mamíferos como o Megazostrodon eram uma exclusividade das elites, que tinham os meios e as ferramentas para extrair essas dermes de seus possuidores e, além disso, costurá-las de forma elegante.

Um costume típico dos trodontes era cobrir a cabeça com algo – um chapéu ou um turbante, que os individualizava tanto quanto os variados cortes de cabelo fariam com os seres humanos, dezenas de milhões de anos depois. E com Zauros Raptori não era diferente – ele usava um imponente chapéu de couro de dinossauro, com algumas marcas azuis (certamente, uma raridade, visto que apenas os dinossauros do extremo norte possuíam tal coloração). A concavidade esférica do acessório encaixava perfeitamente na cabeça, porém as abas seguiam linhas que formariam uma elipse, não fossem dois recortes em forma de arco em cada extremidade, que permitiam o repouso sobre as mandíbulas, caso o jovem eventualmente quisesse cochilar recostado numa conífera.

Zauros morava com seus pais e irmãos em uma grande fazenda de samambaias a alguns quilômetros da vila de Kwalish – uma cidade pequena para os padrões do reino de Écope. Seu pai era um ex-militar, perito em estratégias de guerra com grandes dinossauros. Sua mãe, enquanto isso, havia ajudado, a maior parte da vida, o avô de Zauros, a cuidar da fazenda. Já fazia em torno de 5 anos que o avô de Zauros, um caçador de dinossauros, havia falecido.

Foi o avô que despertou em Zauros o sonho de se tornar um caçador de dinossauros. O velho senhor, que possuía o mesmo nome de seu neto, havia ensinado-lhe os princípios básicos da caça, que o adolescente passou, e continuava passando a seus irmãos depois que ele morreu. Mas individualmente, Zauros não se contentou com o básico. Treinava todos os dias, sempre que tinha um tempo. Lia livros e mais livros com histórias e técnicas de grandes caçadores. Inclusive, andava dezenas de quilômetros, nas raras vezes nas quais podia, para conseguir as leituras que só se encontravam na grande capital.

Como tinha acabado do completar 16 anos, Zauros sabia que já estava pronto para entrar na Guilda dos Caçadores. Encontrava-se receoso por abandonar a família, mas seus pais haviam lhe dado certeza de que seus jovens irmãos, de 11 e 12 anos, podiam substituí-lo com os afazeres da fazenda.

As plantações de samambaia que a família cuidava eram uma herança do avô de Zauros. O caçador, que em vida era um integrante da Guilda, havia comprado aquele terreno assim que havia juntado dinheiro suficiente. Essa era, aliás, a motivação de muitos dos caçadores mais comuns – os lucros da caça poderiam ser rápidos, permitindo a estabilidade financeira para toda uma vida. No caso do avô de Zauros, o processo havia sido um pouco mais lento, mas assim que ele acumulou uma certa quantia de dinheiro, deixou a perigosa profissão.

Zauros, por sua vez, via a coisa de uma maneira diferente. O avô certamente gostava do que fazia, mas não gostava de assumir riscos. Zauros havia sido fascinado pelas caçadas, mesmo que poucas e de baixo risco, que tinha feito junto de seu avô. O jovem trodonte pensava, um dia, em viajar aos quatro cantos do mundo; em perseguir, junto a outros caçadores da Guilda, os mais ferozes e lendários dinossauros. Certamente não queria fama ou dinheiro – apenas a satisfação individual, a emoção de caçar os grandes dinossauros do Cretáceo.

Zauros Raptori estava prestes a começar sua jornada, que viria a ser profundamente diferente do que ele imaginava.

sábado, 2 de agosto de 2008

Trodonte - Capítulo 4

Logo após avistar o Baryonyx, uma confusão de pensamentos tomou a mente de Celeber por um instante. Como havia parado no lago? A última coisa que lembrava era de ter caído no meio da floresta, quando, com muito esforço, havia arrastado seu amigo Decus e a novata do grupo, Thescella.

Alguém me carregou até aqui, essa é a única possibilidade. - pensou o experiente caçador trodonte.

As explicações para o fato dele estar num lugar diferente do qual havia desfalecido rapidamente cederam lugar ao enorme carnívoro como sua principal preocupação.

Talvez ele não tenha me percebido ainda! – Celeber tentava permanecer calmo. Já havia passado por situações certamente piores que essa, e se saído extraordinariamente bem. Ensaiou girar o corpo, para lentamente sair de perto do animal, com a destreza e a tranqüilidade necessárias para não alertar o enorme predador.

Sentiu então uma dor extrema no joelho direito, ao movimenta-lo. Suprimiu com todas as forças um grito, rangendo os dentes. Olhou para a perna. Espantou-se ao ver um grande hematoma cobria a região da rótula.

O que diabos é isso?! – pensou, com surpresa. Teria se machucado ao cair no chão? Olhou novamente para o enorme carnívoro que ameaçava sua vida. A criatura fitava a floresta quase que na direção oposta. Se virasse e então percebesse movimentos bruscos por parte do caçador, certamente avançaria em sua direção. Com os movimentos impedidos, suas chances de sobrevivência diminuíam.

Minhas armas! – veio a idéia e, por um instante, o caçador teve esperança. Sem tirar os olhos do enorme carnívoro, deslocou as mãos até onde estariam os famosos piquetes dos caçadores. Esses piquetes eram uma opção formidável de ataque para distância curtas. Consistiam de uma estaca de metal, que era encaixada num compartimento tubular com uma mola no fundo. A mola, quando comprimida até certo ponto, era contida firmemente por uma trava. Com o simples apertar de um botão, a trava era liberada e a estaca, lançada.

Mas Celeber entrou em pânico novamente. Os piquetes, haviam sido levados. Aliás, agora que tinha se dado conta. Seu arco, as flechas e todos os seus outros itens, nenhum deles estava com o caçador.

Alguém me deixou aqui para morrer! – a assustadora conclusão tomou sua mente. A perna machucada e a ausência das armas confirmavam tudo. Mas porque teriam feito isso?

Não podia pensar nessas coisas agora. Tinha que pensar em sair dali em segurança.

Talvez, quem quer que tenha feito isso, tenha esquecido de alguma coisa! – passou a vasculhar seus bolsos mais escondidos. Com alívio, encontrou um volume num compartimento da calça, localizado na parte da vestimenta que cobria o terço superior da cauda.

Subitamente, o enorme predador virou o pescoço na direção do trodonte. O sangue do caçador congelou. A criatura deu um passo em sua direção, e Celeber sentiu o chão tremer. O trodonte tentava tirar, com desespero, o que estava encaixado naquele bolso da cauda. A criatura se aproximava cada vez mais. Celeber passava a se arrastar instintivamente para longe dela, chegando bem próximo do lago. O enorme predador já estava a alguns metros, quando o caçador, com o coração disparando, finalmente conseguia tirar o item guardado em seu bolso justo.

Assim que removeu o objeto do bolso, este se acendeu. O que Celeber esperava que o salvasse era um frasco com um óleo incandescente, assim como o piquete, uma das armas dos caçadores. Na base do frasco, uma tira com fósforo estava colada – quando o tubo era removido do bolso, a tira se atritava com um anel áspero na boca do bolso, sendo acesa imediatamente.

A criatura que ameaçava Celeber estranhou aquela fonte de luz em sua mão direita, mas se deteve por só um instante. Avançou na direção do trodonte.

Te peguei! – falou em pensamento o caçador, esboçando um sorriso e atirando o frasco no dinossauro. O recipiente se chocou no peito do animal, quebrando-se e espalhando o líquido em sua fronte, que imediatamente ficou em chamas. A criatura, com a dor da queimadura, cambaleou e caiu no chão, esfregando os braços de maneira desajeitada contra o peito, querendo se livrar do enorme incômodo.

Celeber levantou-se como pode, e, arrastando a perna machucada, se afastava triunfante, porém ainda não totalmente seguro. Novamente os pensamentos do que havia acontecido voltaram à sua mente.

Os figos! – a verdade veio como um relâmpago em sua cabeça. Não podia ser uma coincidência. Alguém havia intencionalmente envenenado os figos com alguma substância entorpecente. Esse alguém provavelmente teria sido a mesma pessoa que havia carregado ele até aquele local, próximo do predador – ou quem sabe, do caminho que ele seguiria. O agressor teria tirado todas as suas armas e machucado sua perna, para garantir que ele não sobrevivesse ao encontro com a fera.
Será que esse agressor terá feito a mesma coisa com os outros? – pensou o caçador. Mas seria muito mais fácil envenenar os figos com alguma toxina mortal, se o objetivo fosse matar todos os caçadores. Provavelmente ele era o único alvo. Pensou se isso teria sido obra de algum rival, que desse jeito o mataria sem deixar nenhuma pista do crime.

Já se aproximava da linha das árvores. Olhou para trás e viu o predador se levantando. Calculou rapidamente que poderia se esconder com facilidade antes da criatura alcança-lo novamente.
Subitamente, Celeber ouviu um zunido, e foi ao chão novamente. No solo, se deu conta que havia sido atingido por uma flecha no peito.

O caçador nem teve muito tempo de pensar no que havia acontecido. A dor e o medo o tomavam por completo, enquanto a criatura se aproximava novamente, a não menos que cinco metros das árvores.

Ele ainda está aqui… - concluiu Celeber, com suas últimas forças. Arrastou o rosto com dificuldade no chão, tentando localizar o agressor. Viu apenas um vulto entre algumas árvores, que rapidamente se foi. Observou então a sombra do enorme carnívoro lhe cobrir, impotente e sem mais nenhuma esperança de sobreviver.

Com o movimento característico de pegar um peixe, tal qual fariam os ursos dezenas de milhões de anos depois, o grande Baryonyx puxou o caçador com apenas uma mão. Abocanhou seu corpo no ar, matando-o instantaneamente com o primeiro fechar das mandíbulas.

sábado, 26 de julho de 2008

Trodonte - Capítulo 3

Enquanto observavam, a algumas dezenas de metros de distância, um grupo de estegossauros abocanhando folhas de um arbusto, Celeber e Decus tiravam de suas mochilas de couro os figos dos quais fariam a refeição da tarde. Sem interromper a conversa, os dois trodontes se alojavam apropriadamente, cada um em um galho. Ambos tinham as visões, tanto do bando de dinossauros perseguidos, quanto do grupo de caçadores que guiavam.

- E você acha que conseguiríamos abater os dois filhotes? – perguntou Decus, o trodonte designado como Monitor do grupo. O assistente de Celeber, que era efetivamente o líder da expedição, referia-se claramente aos dois filhotes de Baryonyx que o grupo havia avistado no dia anterior.

Não só os herbívoros, mas também os carnívoros eram caçados pelas equipes da Guilda dos Caçadores – embora sua utilização fosse deveras diferente: as ferozes criaturas eram usadas prioritariamente como guardas das grandes propriedades, e como oponentes de gladiadores nas arenas. Evidentemente, a caça de filhotes era muito mais fácil que a dos dinossauros adultos. Além disso, o adestramento de dinossauros carnívoros adultos era praticamente inviável.

- Eu creio que sim. – respondeu Celeber ao companheiro, enquanto tirava de sua mala de couro, os figos dos quais a dupla faria a refeição da tarde. Logo entregou a Decus três ou quatro deles. – Precisamos apenas arrumar um jeito de separar os filhotes dos pais.

Os dois continuavam a conversa, debatendo agora não só as estratégias para caçar o grupo de estegossauros, como também para pôr as mãos naqueles dois filhotes de Baryonyx – uma oportunidade que havia surgido durante a expedição e que, dado o valor comercial da espécie de carnívoro em questão, não podia ser ignorada. Saboreavam os figos com calma, sem deixar de prestar atenção aos movimentos do bando de estegossauros. Afinal, qualquer um deles poderia disparar em direção do grupo de caçadores, sem motivo aparente.

Foi então que, abaixo deles, no solo, surgiu repentinamente Thescella. A trodonte parecia cansada, ofegando enquanto apoiava-se numa árvore. Celeber e Decus se entreolharam, e desceram rapidamente da árvore sobre a qual estavam.

- Thescella, você está bem? – perguntou com sincera preocupação Celeber. Decus tirava, enquanto isso, uma moringa com água de sua mala de couro.

- Os figos… - disse a trodonte, com muito esforço. Logo perdeu seu apoio e foi ao chão, apoiando-se com a outra mão. Os dois trodontes se entreolharam, ainda processando o que ela havia dito. – Não com… Mmmph…

Thescella tentou completar a frase, mas, sem forças, foi aos braços de Celeber, que a segurou como pôde.

- Thescella, o que você tem? Thescella! – disse o dinossauro, tentando acordar a caçador. Tentava posicionar o corpo da jovem, e estranhou que o Monitor não estivesse ajudando-o. Atento à desfalecida, chamou pelo companheiro. – Decus, me ajude aqui!

Entretanto, o amigo de Celeber olhava aos arredores, parecendo como se estivesse tentando elaborar uma estratégia. O famoso caçador, vendo isto, estranhou. Não entendia por que ele não o ajudava com Thescella, que parecia ter sofrido um mal-estar.

- Os figos estão contaminados! – disse subitamente Decus. Celeber caiu na real. Thescella tinha tentado avisa-los antes de desmaiar. E ele, tão preocupado com a conterrânea, não atentou às suas palavras, convencido de que ela havia sofrido apenas um mal-estar. – Eu vou ver se todos estão bem, me ajude a subir!

Celeber ajudou seu companheiro a escalar novamente a árvore. Mas mal subiu nela, Decus sentiu seus braços fracos. Os figos contaminados estavam fazendo efeito. Soltou-se da árvore e se concentrou, tentando inutilmente não desmaiar.

- Decus! – exclamou Celeber. Sabia muito bem dos perigosos que os dois corriam ali, se fossem encontrados por predadores. E logo ele também desmaiaria, embora tivesse comido apenas um dos figos. Em seus braços, o Monitor esforçava-se para falar. – Deixe-me aqui, leve só a garota! Antes que você também desmaie!

Apesar da experiência, o famoso caçador estava assustado. Nunca havia passado por isso antes. Decus desmaiou em seus braços. Lembrou-se rapidamente das regras: “se o grupo estiver parcialmente incapacitado, todos devem ficar juntos e num lugar protegido, para melhorar as condições de sobrevivência.”. Mas como aplicaria as normas da Guilda numa situação como aquela? Provavelmente, todos estariam desfalecidos àquele hora.

Seu amigo havia pedido-lhe que levasse apenas a jovem Thescella, mas Celeber não podia deixa-lo. Com razoável esforço, começou a arrastar os dois trodontes até a clareira onde o grupo se encontrava. Eram só algumas dezenas de metros, mas pareciam quilômetros para o Mestre de Caça. Ainda sem avistar a clareira, começou a sentir a fraqueza que os figos contaminados lhe causavam. Dobrou os esforços. Faltavam apenas alguns metros. Quando chegou perto do grupo, caiu no chão, tonto e ofegante.

Seus olhos pesavam. Não podia mover um músculo sequer. Sem forças, adormeceu.


O grande lago no centro da floresta de coníferas era o ambiente perfeito para que um bando de dinossauros bico-de-pato matassem a sede. O Baryonyx, nas margens do outro lado, não os preocupava. De todo o modo, o carnívoro os ignorava, enquanto tentava arrancar, com custo, os restos de alguma criatura que estavam presos debaixo de um tronco.

A dez ou quinze metros dele, um trodonte estava caído no chão.

Celeber abriu os olhos, entorpecido. A luz lhe ofuscou a vista por um momento. Pensou por um momento em que lugar estaria. Sentiu a areia grossa das margens do lago em seu rosto, e a brisa característica. A mesma lhe trouxe os odores de carne apodrecida. Pô-se em alerta, e virou a cabeça lentamente na direção oposta. Arregalou os olhos , enquanto um medo avassalador tomou sua face por completo.
Viu então o Baryonyx, que acabava de remover aquele pedaço de carne apodrecida de debaixo tronco, e engoli-lo.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Trodonte - Capítulo 2

Divisão política da América do Norte - Final do Cretáceo

No tempo dos trodontes, grupos de caça altamente especializados percorriam todo o globo à procura de dinossauros que pudessem satisfazer as necessidades, básicas ou não, da civilização em constante expansão. Essas necessidades eram extremamente variadas. O transporte de cargas, a construção de monumentos faraônicos, as guerras sangrentas e a simples alimentação eram os exemplos mais comuns.

Nessa antiga sociedade, uma instituição destacou-se por sua excelência na caça de dinossauros. Era a Guilda dos Caçadores, um grupo de trodontes espalhados por todo o mundo que, por algumas moedas de ouro, estavam dispostos a arriscar suas vidas no que era considerado, ao menos em seus livros, como uma arte: o rastreio e o abatimento daquelas incríveis criaturas.

O grupo que penetrava na floresta de coníferas ao norte do que hoje é a Inglaterra, não diferente de qualquer outro grupo que obedecia às ordens da Guilda dos Caçadores, era chefiado por um trodonte mais experiente na profissão, denominado pelas normas como Mestre de Caça. Esse líder, exatamente por sua experiência, normalmente postava-se à frente do grupo, em geral num ponto intermediário entre este e qualquer bando que os caçadores, costumeiramente, estivessem seguindo. Junto dele ficava o segundo caçador mais experiente do grupo, denominado também pelas normas como Monitor. O objetivo desse posicionamento era verificar com antecedência qualquer mudança de direção que os dinossauros pudessem fazer, sem entretanto assustar os animais com uma presença numerosa de caçadores, que por mais silenciosos que fossem, não passavam despercebidos aos sentidos mais aguçados das criaturas.

O nome do Mestre de Caça do grupo que seguia os estegossauros era Celeber. Seu porte era avantajado; seus músculos, bem definidos. As escamas eram amareladas e marrons, parecidas com as de Thescella – de fato, tinham a mesma origem, o Extremo Leste da Laurásia, o continente oriental da Terra ao fim do Cretáceo. Inclusive, a origem coincidente permitiu que eles se tornassem extremamente próximos durante o período da caçada, por mais que Celeber fosse uma figura famosa na Guilda, enquanto Thescella era apenas uma caçadora em treinamento, no caso, ainda em suas primeiras caçadas em campo.

Celeber já havia matado monstros que muitos dos integrantes do grupo apenas sonhavam. Um Tyranosaurus e um crocodilo gigante do Mesozóico, o Deynosuchus, eram alguns dos exemplares que o caçador gabava-se em ter derrotado. Inclusive, o orgulho com o qual ele contava suas histórias era sua marca registrada – e poucos o chamavam de convencido, pois além de merecer as glórias, ele recitava suas aventuras de maneira extremamente carismática.

O Monitor de Celeber, na ocasião, era um caçador quase tão experiente quanto ele, mas não tão famoso quanto. Seu nome era Decus. Era conhecido na Guilda por sua honra, e pelo respeito com o qual tratava os dinossauros caçados – Decus era a síntese do que os livros chamavam de “Comunhão Caça-Caçador”. Talvez por isso mesmo, não havia se lançado nas chamadas Caças Livres – quando um caçador ou grupo de caçadores abatia um animal apenas para aumentar sua graduação dentro da Guilda. As Caças Livres eram importantes para caracterizar o que um trodonte era capaz de fazer dentro da profissão. A relação de animais relevantes caçados por um integrante da Guilda era, muitas vezes, estudada pelos seus contratantes antes que estes lhe dessem os recursos e fizessem os pagamentos adequados relativos a uma expedição. Mas Decus, aparentemente, contentava-se com suas riquezas, que, assim como as de muitos caçadores, era suficiente para uma boa vida; e dessa forma, não almejava uma graduação alta, apesar de que esta já passava a se tornar, dados seus anos e anos de serviço.

Celeber, o Mestre de Caça e Decus, seu Monitor, estavam a apenas algumas dezenas de metros do grupo, que descansava numa pequena clareira. De longe, podiam observar claramente um conjunto de 5 a 10 estegossauros, que pastavam tranqüilamente. Ao mesmo tempo, aproveitavam a calma do momento para fazerem sua própria refeição – como o grupo, apenas alguns figos.

sábado, 28 de junho de 2008

Apocalipse Múltiplo - parte 1

Em 4 de janeiro de 2012, um atentado terrorista deu início a uma série de eventos que mudaria profundamente a história da humanidade.

À época, o presidente dos EUA era o democrata Barack Obama. Pouco mais de três anos de sua eleição, as tropas americanas já haviam sido retiradas do Iraque, como havia sido prometido durante a campanha. Apesar dessa ação aparentemente consciente, o anti-americanismo no mundo todo continuava. Por outro lado, era acompanhado da pressão sobre o governo por parte do povo da nação, cada vez mais insatisfeito com os preços progressivamente mais altos do petróleo.

Na manhã daquele inverno, mais precisamente nos céus próximos ao Central Park, a 2350 metros do ponto onde, em 11 de setembro de 2001, haviam sido atingidas as torres do World Trade Center, um artefato nuclear de pequenas proporções foi detonado. Mais uma vez, o atentado foi obra do terrorista Osama Bin Laden. E os radicais islâmicos novamente haviam sido engenhosos: foi usado um balão para colocar a bomba na altitude que causasse o maior número de vítimas possível, sendo que esse balão trazia uma mensagem de aparente repúdio à retirada das tropas do Iraque. O propósito da mensagem era evitar que o bolão fosse abatido antes da hora – o governo estava receoso em reprimir duramente esse tipo de manifestação, afinal, muitos americanos já haviam sido presos ou mortos por se revoltar contra a desocupação do Iraque, o que provocou grande queda na confiança no governo. O preço desse erro foi grande: 86 mil mortos na hora.

Três dias depois, em 7 de janeiro, o então senador Arnold Schwarzenegger fez um discurso que, embora não tivesse sido transmitido ao vivo pela TV, provavelmente se tornou o vídeo mais assistido da História. Nele, o político criticava a falta de atitude do então presidente Barack Obama, e, já pensando em sua presidência em 2013 (afinal, como era de se esperar, emendas na constituição permitiriam que o ex-ator austríaco se elegesse), anunciou que, se então fosse o líder do país, e se as nações do Oriente Médio não expusessem totalmente a organização terrorista Al Qaeda, os EUA atacariam o subcontinente com todas as forças.

O sentimento de vingança, aliado com as preocupações provindas da crise econômica, tomou conta dos americanos, e a eleição do antigo governador da Califórnia já estava garantida. De fato, na prática ele já havia se tornado o presidente com o discurso de 7 de janeiro.

Uma extensa campanha militar, cujo alvo principal era o Irã, se iniciou em meados de 2013. O que os americanos não contavam era com o repúdio, dessa vez muito mais intenso, por parte da ONU e mais especificamente da China, que acusavam os EUA diretamente de querer ocupar os campos de petróleo de todo o Oriente Médio, sejam eles de países aliados, que “hospedavam” as tropas, ou de inimigos.

Mas a maior surpresa veio da resistência dos países islâmicos. Dezenas de milhares de soldados americanos morreram em poucos meses. Os Estados Unidos passaram a suspeitar do suporte da China aos países resistentes.

Em 2016, quando a contagem de mortos passava das centenas de milhares de militares americanos e de milhões de civis asiáticos, o governo americano, impaciente, tomou a decisão crucial: usar armas nucleares. Alvos supostamente estratégicos foram aniquilados. A sede de sangue das massas americanas, pelo menos naquele momento, foi saciada.

Porém, a resposta veio na mesma moeda. As “nações terroristas” detonaram armas nucleares nas capitais ocupadas, principalmente naquelas que seriam pontos-chave para a extração do petróleo do Oriente Médio, como o Kwait. Os Estados Unidos imediatamente acusaram a China de fornecer essas armas aos resistentes.

A guerra nuclear devastou o subcontinente do Oriente-Médio. Ao todo, foram 29 armas atômicas detonadas, sendo 21 por parte dos americanos. Em meados de 2019, a radiação acumulada já chegava a afetar uma parte da Índia. Estima-se que 90 milhões de pessoas tenham morrido no conflito, quando os Estados Unidos retiraram as tropas definitivamente da região, deixando para trás apenas um deserto estéril.

A década de 2020 apresentou os primeiros sinais das mudanças climáticas mundiais, iniciadas pelo desenvolvimento industrial dos séculos 19 e 20 e catalisadas pela guerra nuclear no Oriente Médio. As áreas de desertificação, como o centro dos EUA, o nordeste brasileiro e o norte da África cresceram e se tornaram ainda mais quentes e secas, enquanto as temperaturas na Europa caíram surpreendentemente. Os recordes de frio e calor foram batidos sucessivamente.

Enquanto isso, a crise do petróleo se agravou. O Oriente Médio havia se tornado inexplorável, e o Brasil, que possuía a segunda maior reserva do mundo do precioso combustível, não tinha capacidade para extraí-lo de modo eficiente. Mas justamente por essas razões, as atenções globais se voltaram ao país neutro.

No final da década, mais precisamente a partir de 2028, uma empresa privada surpreenderia o mundo com um crescimento sem igual. A Corporação Axis, centrada em desenvolvimentos tecnológicos em geral (mas com uma ampla gama de outras atividades), conquistaria o globo em três diferentes “frentes”:

A primeira, foi o desenvolvimento de micro-reatores nucleares funcionais, que poderiam ser usados para prédios, residências, e até mesmo veículos de grande porte. Num mundo com petróleo cada vez mais raro e por conseqüencia caro, a nova tecnologia foi extremamente bem-recebida, gerando altos dividendos para a empresa.

A segunda foi a criação da Ultranet, uma interface intuitiva que representava a própria Terra com fidelidade, combinando ao mesmo tempo vários serviços (algo parecido foi feito no início do século com o sistema chamado Second Life), que rapidamente substituiu a internet na navegação pela rede. O slogan do serviço era “A realidade está obsoleta”. De fato, a Ultranet apresentava um nível de detalhamento maior, no mundo digital, do que o que podia ser captado pelos olhos humanos, no mundo real.

E a terceira e última, no início de 2032, foi a produção e venda dos primeiros robôs domésticos, tecnologia desenvolvida pela filial da empresa no Japão. Além da qualidade excepcional, a reputação construída pela empresa naqueles quatro anos foi altamente responsável pela venda dos mesmos, supostamente em absoluto seguros por um sistema que colocava, acima de tudo, as três leis da robótica, concebidas por Isaac Asimov.

[continua]

sábado, 24 de maio de 2008

Trodonte - Capítulo 1

Norte da Inglaterra - Cretáceo, 65 milhões de anos atrás

Em uma das muitas florestas de coníferas que cobriam o planeta ao final do cretáceo, um distinto grupo de dinossauros conscientes parava por um momento para um breve descanso.
Pertencentes à raça dos trodontes, esses dinossauros lembravam um pouco o animal do qual haviam evoluído, o Troodon. Os olhos ainda eram avantajados, mas em comparação aos dos seus ancestrais, estavam mais cobertos pela carne dos músculos ao redor, adicionando agressividade à fisionomia dos indivíduos. As pupilas permaneciam com a forma alongada, determinando-os definitivamente como répteis. A cauda havia diminuído consideravelmente, tornando-se mais um membro robusto que um elemento que ajudasse o dinossauro a correr com o corpo alongado na horizontal – mesmo porque os trodontes não mais andavam nesta posição, e sim de forma ereta. Os braços e o tórax apresentavam mudanças mais aparentes – haviam se tornado maiores e mais musculosos, acompanhando as necessidades dos trodontes em evolução. Já o focinho era mais retraído do que o dos ancestrais, tornando a forma do crânio mais compacta e menos alongada.


O curioso grupo vestia roupas de couro de diferentes cores, de diferentes animais caçados em torno de todo o mundo. Essas roupas, tais quais as roupas humanas, destinavam-se primariamente à cobertura das pernas e do tórax, com a diferença que as calças desses dinossauros possuíam uma terceira abertura, de diâmetro um pouco maior, para a cauda.
Diversos apetrechos pendiam das vestimentas do grupo, mas predominava a visão das armas que cada trodonte carregava consigo. Arcos longos e curtos, aljavas repletas de flechas, escudos, espadas curtas e longas, atiradeiras, dentre outras. Todo esse aparato, dada a época e a natureza de seus possuidores, tinha apenas uma explicação: eram caçadores.
Dos dez indivíduos que constituíam esse grupo, apenas um era do sexo feminino. A aparência das trodontes não era muito diferentes da dos trodontes, apenas os traços do rosto eram mais finos e delicados e os músculos eram bem menores. Mas o porte mais esguio conferia agilidade à elas, algo que poderia ser tão ou mais importante numa luta que a força física.
O nome da trodonte era Thescella Struthi. Extremamente bonita para os padrões desses dinossauros, suas escamas eram marrons e beges (enquanto boa parte do grupo tinha as escamas marrons e verdes), definindo sua origem como do Extremo Leste. O brilho de suas cores caracterizava-a, também, como uma jovem. Apesar de tudo isso, aquela jovem era tão ou mais experiente quanto todos os caçadores que a acompanhavam


O grupo de caçadores aproveitava a pausa comendo figos, uma das frutas que já existia no cretáceo. Já estavam em caçada há uma semana, e esta já se mostrava produtiva. Dois estegossauros havia sido habilmente separados do bando e abatidos, mais ainda faltava encontrar um dos ninhos das criaturas para coletar seus ovos.
Dois dos caçadores, provavelmente os mais experimentados e ao mesmo tempo os mais esforçados, conversavam animadamente sobre como haviam se saído no dia anterior, sendo que um deles havia dado o golpe final numa das criaturas.

- Pois então, você viu o ponto exato que a minha flecha perfurou o tórax do estegossauro? – disse um deles, cortando um pedaço de figo e engolindo-o, quase sem mastigar.

- Bem, eu não vi exatamente na hora em que você atirou, eu estava do outro lado. Mas sim, depois eu vi o ferimento, bem acima do ombro, antes de darmos o golpe de misericórdia. Mas por que você não acertou a cabeça primeiro? – perguntou o segundo caçador, enquanto procurava algo em sua mochila.

- A cabeça do estegossauro é pequena. – continuou, gesticulando com as mãos, quase como um professor empolgado – É aí que entra minha teoria.

O segundo caçador fez uma cara de leve surpresa, mas no fundo desconfiando das habilidades do colega. Tirou então uma moringa da mala, junto de dois copos. Serviu a si mesmo e ao falante colega de água, pegando então um figo e cortando-o para melhor mastiga-lo.

- Bem, na verdade, minha teoria não – seguiu na explanação o primeiro caçador. – Já encontrei muitos caçadores que dizem ter caçado estegossauros do mesmo jeito. A teoria diz que existe um ponto fraco logo acima do ombro desse dinossauro. Você viu o quão rápido ele caiu, logo com a minha primeira flecha?

O companheiro assentiu com a cabeça. Era verdade, o estegossauro havia caído excepcionalmente rápido para uma flecha que havia acertado o ombro.

- E você disse algo sobre isso… - foi então que o segundo trodonte sentiu uma repentina sonolência. Estranhou muito aquilo. Esfregou os olhos, mas de nada adiantava. Agora parecia meio tonto, entorpecido. Logo sua visão começava a falhar.

- Você está bem? – perguntou o primeiro trodonte. Segurou o amigo com as duas mãos pelos ombros, um segundo antes dele desmaiar em seus braços.

Confuso, o primeiro trodonte, então, começou a sentir o mesmo que o amigo. Ficou em pânico ao olhar em volta. Haviam mais dois do grupo caídos. Ele botou o companheiro no chão e tentou alguns passos, mas caiu no chão, desfalecido. Antes de cair, olhou para a mão do companheiro, e então entendeu a causa daquilo: os figos.

sábado, 10 de maio de 2008

Sobre o uso de dinossauros no campo de batalha (parte 2)

Saurópodes

O uso dos saurópodes no campo de batalha se justifica por dois motivos: a posição privilegiada que eles dão aos arqueiros e a invasão de fortalezas e áreas protegidas em geral.

No caso dos arqueiros, principalmente aqueles que usam arcos de longo alcance, estes se beneficiam pois podem obter, caso se posicionem na cabeça desses dinossauros, a melhor posição para efetuar o disparo de suas flechas. Essa tática é especialmente útil quando trata-se de eliminar um ou mais soldados trodontes que estejam de sentinela. Um técnica constantemente empregada por esses soldados consiste em se esconder, conjuntamente com o saurópode, atrás de alguma obstrução (na maior parte dos casos do próprio terreno) que impeça a visão do alvo. Ao dinossauro é então dada a ordem, pelo montador, para erguer apenas cabeça (o pescoço longo do animal permite alcança uma altura de até dez metros). O arqueiro terá então uma posição excepcional para efetuar o disparo.
Em meio à batalha, os arqueiros também podem fazer bom uso da posição privilegiada em cima da cabeça do dinossauro, principalmente a fim de atingir seteiras nas muralhas inimigas com mais exatidão.

Mas talvez o uso mais extraordinário dessas criaturas seja na invasão de fortalezas. Mesmo muralhas com 15 metros de altura não podem impedir o avanço de um exército que esteja empregando alguns Brachiosaurus, por exemplo, afinal os soldados trodontes facilmente escalarão pelo dorso do dinossauro, se este for corretamente posicionado. Além disso, esses animais podem transportar facilmente tropas de elite inteiras, com algumas dezenas de soldados, pelo campo de batalha.

O uso desses dinossauros, entretanto, é o mais caro entre todos, devido às dificuldades na criação e também à armadura que deve ser empregada para protege-los, principalmente nas pernas, pois se estas forem seriamente golpeadas a criatura virá abaixo sem poder mais se levantar, e no pescoço, onde uma simples lança pode significar a morte. Além da armadura é importante cercar este dinossauro com outros dinossauros para protege-lo, como os anquilossauros ou ceratopsídeos.

A armadura, vale lembrar, deve ser especialmente produzida por ferreiros especializados, pois além de proteger, deve garantir que os soldados trodontes possam se apoiar e/ou andar sobre ela sem dificuldades.

Os saurópodes mais empregados no campo de batalha são:
- O Brachiosaurus, a espécie maior, com até 23 metros de comprimento e por volta de 80 toneladas de peso;
- O Shunosaurus, uma espécie menor (até 14 metros de comprimento e 9 toneladas de peso), porém com o diferencial de ter uma clava óssea na cauda, melhorando sua capacidade de defesa;
- O Diplodocus, uma das espécies mais compridas com cerca de 27 metros, e não tão pesada, cerca de 20 toneladas; a cauda deste dinossauro pode ser utilizada como chicote a fim de abater outras bestas.

Galimimos

O grupo dos galimimos é constituído pelas montarias individuais de uso geral no campo de batalha. Apesar de serem capazes de transportar apenas um soldado, as espécies mais rápidas podem ultrapassar os 60 km/h. Ideal para soldados portando lanças longas.

Os tipos mais usadas como montaria de combate são:
- O Galimimus, de 3 a 4 metros de comprimento, e que alcança os 50 km/h;
- O Dromiceiomimus, também de 3 a 4 metros de comprimento, mas que alcança até 60km/h.

Pterossauros

Os répteis voadores constituintes do grupo dos pterossauros são difíceis de se adestrar e por isso caros, mas o uso deles pode ter importância estratégica em certas batalhas.

Apesar do tamanho, essas criaturas são muito leves (o maior deles não ultrapassa os 100 kg de peso), o que justamente lhes garante a capacidade de voar. Mas isso torna também inviável o transporte de mesmo um único soldado.

O uso deles limita-se, então, ao arremessar de pedras ou mesmo grandes frascos com óleo fervente de alturas elevadas sobre as tropas inimigas. Dada a dificuldade dessas tarefas explica-se parte da dificuldade em se adestrar essas bestas para o uso em combate. Além disso, deve ser considerada a vulnerabilidade delas, afinal não se pode usar nenhuma armadura devido ao peso extra, impossível de ser carregado.

Os principais pterossauros empregados são:
- O Pteranodon, com 8 metros de envergadura das asas e cerca de 20 kg de peso; algumas linhagens desses animais são capazes de carregar por volta de 5 kg de peso;
- O Quetzalcoatlus, com até 14 metros de envergadura das asas (sendo a maior espécie) e cerca de 100 kg de peso; o peso máximo que já foi observado uma criatura dessas carregar foi de 20 kg.

Apêndice – O montador

O montador de dinossauros merece destaque especial. Ele será constantemente visado no campo de batalha pelos arqueiros inimigos, afinal é o único capaz de controlar sua criatura, e sem ele, ela se torna inútil.
Os montadores devem sempre usar armadura completa. Além disso, se possível, cada dinossauro deve ter um montador reserva, que permanece deitado e protegido sobre o dorso do animal e só se manifesta caso o montador original seja abatido.

sábado, 26 de abril de 2008

Prólogo - O desenvolvimento de uma civilização

Foram necessários apenas alguns milhões de anos (diante das proporções titânicas das eras geológicas) para que aquelas criaturas da savana despertassem para a consciência.

Mas esse despertar, de forma alguma, não foi precedido por grandes saltos evolutivos que acabaram, muito tempo depois, por definir o que é um animal, e o que é um ser inteligente. Dentre eles, um dos dedos opondo-se aos outros, permitindo o manuseio de objetos, de armas, de equipamentos. Também a caça em conjunto, potencializada pela visão binocular dos indivíduos, cada vez mais aguçada e permitindo a melhor percepção da profundidade. Outro exemplo, a capacidade de se comunicar, de criar e transmitir cultura através das gerações.

Após esse despertar, passaram-se alguns milhares de anos. Foi descoberto o fogo, a cerâmica, entre outros artifícios. Conjuntamente chegou a época em que aquelas criaturas se organizavam em numerosas tribos, aumentando a capacidade de sobrevivência em meio ao ambiente hostil, repleto de bestas de dentes afiados. As tribos não demoraram a se tornar cidades, quando aquelas criaturas descobriram que podiam plantar seus próprios vegetais, em vez de colhê-los. Ou mesmo criar, em vez de caçar, os pequenos animais do qual obtinham a nutritiva carne.

Até mesmo os assustadores monstros, não pareciam mais tão assustadores assim, quando criados desde o nascimento. As espertas criaturas da savana não mais precisavam caminhar, pois montavam nas bestas mais ágeis, ou mesmo nas mais portentosas. E as que não podiam ser domesticadas, eram caçadas por aqueles que não as temiam – aqueles que mantinham sua conexão com o passado animalesco, mas bem faziam uso de sua inteligência para permanecerem sempre como caçadores, e nunca como caça, em lugares nos quais, para a maioria daqueles da cidade, isso parecia impossível.

Passados mais alguns milhares de anos, eles se espalharam aos milhões pelas extensões continentais. As cidades cresceram e prosperaram, formando metrópoles onde os indivíduos produziam e comercializavam incessantemente. A tecnologia se desenvolvia lenta, mas continuamente. O mesmo acontecia com a guerra. Finalmente veio a interessantíssima época em que aquelas criaturas colidiam suas espadas, atiravam suas flechas e montavam suas bestas magníficas em nome de poderosos impérios.

Era então um mundo em pleno desenvolvimento, mas ainda em grande parte inóspito e perigoso. Aquelas criaturas haviam adquirido a inteligência, haviam se reunido e prosperado em seus domínios, mas ainda eram inocentes como civilização. Tal qual se repetiria, muito tempo depois.

Afinal, aquelas criaturas viveram 65 milhões de anos antes do primeiro homem.