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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Trodonte - Mitologia [parte 2]

Após a Dominação de Ordox sobre Caox, inicia-se a Segunda Era da Criação.
Da união de Lithos (a terra) e Piros (o fogo), nasceram as primeiras estrelas: a Lua (cujas chamas trepidavam no início dos tempos, ao contrário do que os trodontes podem ver hoje) e o Sol. As estrelas nada mais são que grandes esferas de terra com chamas colossais, capazes de aquecer e iluminar mesmo o mais longínquo ponto. Ambas viviam em torno de Ordox e de seu irmão dorminado, Caox.
Lithos e Piros uniram-se milhares de vezes mais e geraram as milhares de estrelas fixas no firmamento, e até hoje repetem este ato. Entretanto, apenas às primogênitas, a Lua e o Sol, foi dado o privilégio de se aproximar de Ordox e Caox.
Além da união com Piros, Lithos também uniu-se com Aeros (o ar) e Hidros (a água) e criou Galflag, ou o Tríplice Híbrido. Entretanto, Galflag era fraco, e morreu logo após seu nascimento. Aeros, Hidros e Lithos, sem desistir, uniram-se novamente e recriaram o híbrido milhões de vezes, mas o resultado era o mesmo. Só quando foi colocado sobre o crânio de Ordox é que Galflag pôde sobreviver.
Galflag é o próprio planeta Terra, e seu nascimento e crescimento somente sobre o crânio de Ordox representam a necessidade de desenvolvimento, que só o último é capaz de satisfazer. Com o passar do tempo, Galflag moldou-se e tomou a forma da cabeça de seu hóspede, como um elmo.
Com Galflag repousando sobre o crânio Ordox, inicia-se a Terceira Era da Criação.
De Galflag brotou Halana, que moldou a primeira forma de vida - tornando-se, pois, a Moldadora da Vida. A primeira forma de vida era única e sublime.
Entediada, Halana gerou Ailamina e Eatnalpa, e incubiu-lhes a tarefa de alterar a vida por ela mesma criada. Ailamina e Eatnalpa moldaram a vida e criaram, respectivamente, o primeiro animal e a primeira planta.
Mas Halana não se deu por satisfeita. A primeira planta e o primeiro animal, assim como a primeira forma de vida, tinham formas únicas e sublimes. Halana pediu ajuda aos deuses primordiais, Lithos e Hidros. Convidou-os a alterar essas formas de vida como bem entendessem, e então surgiram a primeira planta aquática, a primeira planta terrestre, o primeiro animal aquático e o primeiro animal terrestre.
Entretanto, novamente, essas formas de vida era únicas e invariáveis. Ailamina e Eatnalpa, então, geraram inúmeros filhos unindo-se com Lithos, Hidros e até mesmo Aeros, que eram incumbidos de alterar essas formas de vida como bem quisessem. Esses filhos também geravam seus próprios filhos, que continuavam este mesmo trabalho. E, com cada novo deus moldando a vida à sua maneira, surgiram as diferentes facetas da mesma, presentes até hoje: os pinheiros, os sapos, as samabaias, os tiranossauros, e assim por diante.
Dezenas de gerações de deuses já haviam moldado a vida, quando nasceu Tarod, o deus dos trodontes. Diante de milhões de formas de vida já existentes, Tarod modificou levemente um dinossauro, mas foi essa modificação que o tornou exatamente igual a Ordox.
Ordox, então, transmitiu uma ínfima parte de sua consciência para esta criatura, idêntica a si. E então surgiu a primeira criatura inteligente, capaz de criar e se desenvolver.
Começou então a Quarta Era da Criação, na qual se desenvolve a civilização trodonte.

sábado, 25 de outubro de 2008

Os fins da evolução

Quando o blog tinha apenas alguns posts, lembro-me de citar que haviam quatro grandes questões (ou seriam mistérios) que o ser humano talvez nunca "solucione". A saber: a existência, a vida, a inteligência e o amor.
Refletindo um pouco sobre a questão da inteligência (a consciência, para ser mais exato), me veio a seguinte indagação: será que esta não faz parte do segundo mistério, a vida? Porque a inteligência nada mais é que um mecanismo que a evolução encontrou para perpetuar a vida. Apenas um dos acasos, dentre tantos outros, que surgiram para que as formas de vida fossem cada vez mais evoluídas e adaptadas ao ambiente, mesmo que em constante mudança. Com a diferença que a inteligência é bem mais intrigante que mesmo um par de pulmões para um peixe que dá seus primeiros passos em terra firme - talvez isso valide a questão, novamente. Mas de todo mundo, não deixa a inteligência de fazer parte do mistério da vida.
Porém, o que eu quero discutir aqui, hoje, não é especificamente isso. É a validade daquilo que chamamos de evolução. Justamente a inteligência nos dá, supostamente, a posição no topo da cadeia evolutiva.
Porém, vamos imaginar outra situação. Na história que eu estou tentando escrever nos últimos tempos, Trodonte, tento imaginar uma sociedade em que uma espécie de dinossauro evoluiu para uma criatura consciente. Na época desses dinossauros, havia predadores terríveis, muito maiores que quaisquer outros do nosso tempo. Não que necessariamente o tamanho fosse algo que importasse, mas será que poderia haver um predador tão mortífero e eficaz, que nem mesmo uma espécie inteligente teria condições de competir com ele (e se desenvolver tecnologicamente), sendo até mesmo dizimada pelos indivíduos de sua espécie? Não seria essa, então, a espécie dominante, num dado momento? Ou será que a inteligência sempre predominaria, mesmo que sobre a força de um predador, por mais colossal que fosse?
Mais um caso que podemos analisar: dos insetos vivendo em sociedade. Esse tipo de comportamento, a convivência em sociedade, não muda há centenas de milhões de anos. Não seria esse mais um topo da cadeia evolutiva? É curiosa a capacidade de comunicação das formigas, por exemplo, em que as informações são transmitidas pelos membros de uma colônia, um a um, de maneira muito rápida e eficiente. É extremamente interessante comparar esse funcionamento da colônia com o de um ser humano. Não somos grandes colônias de células, afinal?
E por último, conforme eu discuti num dos primeiros posts do blog, a respeito dos robôs que podiam imitar o mecanismo da vida, se replicando e até mesmo evoluindo. Imaginemos que seja possível criar os tais nano-robôs, e que estes se alimentassem unicamente de energia solar - a fonte primordial de praticamente todas as formas de energia da crosta terrestre. Dado que nós também, mesmo que indiretamente, nos utilizemos dessa energia (afinal, comemos plantas e animais que comem plantas, e nem é preciso dizer que elas "acumulam energia" por meio da fotossíntese), não seria esse mais um passo nos caminhos da evolução? Seriam então esses robôs não só formas de vida, mas as formas perfeitas de vida? E não seríamos nós, então, apenas marionetes dos processos de evolução?

sábado, 2 de agosto de 2008

Trodonte - Capítulo 4

Logo após avistar o Baryonyx, uma confusão de pensamentos tomou a mente de Celeber por um instante. Como havia parado no lago? A última coisa que lembrava era de ter caído no meio da floresta, quando, com muito esforço, havia arrastado seu amigo Decus e a novata do grupo, Thescella.

Alguém me carregou até aqui, essa é a única possibilidade. - pensou o experiente caçador trodonte.

As explicações para o fato dele estar num lugar diferente do qual havia desfalecido rapidamente cederam lugar ao enorme carnívoro como sua principal preocupação.

Talvez ele não tenha me percebido ainda! – Celeber tentava permanecer calmo. Já havia passado por situações certamente piores que essa, e se saído extraordinariamente bem. Ensaiou girar o corpo, para lentamente sair de perto do animal, com a destreza e a tranqüilidade necessárias para não alertar o enorme predador.

Sentiu então uma dor extrema no joelho direito, ao movimenta-lo. Suprimiu com todas as forças um grito, rangendo os dentes. Olhou para a perna. Espantou-se ao ver um grande hematoma cobria a região da rótula.

O que diabos é isso?! – pensou, com surpresa. Teria se machucado ao cair no chão? Olhou novamente para o enorme carnívoro que ameaçava sua vida. A criatura fitava a floresta quase que na direção oposta. Se virasse e então percebesse movimentos bruscos por parte do caçador, certamente avançaria em sua direção. Com os movimentos impedidos, suas chances de sobrevivência diminuíam.

Minhas armas! – veio a idéia e, por um instante, o caçador teve esperança. Sem tirar os olhos do enorme carnívoro, deslocou as mãos até onde estariam os famosos piquetes dos caçadores. Esses piquetes eram uma opção formidável de ataque para distância curtas. Consistiam de uma estaca de metal, que era encaixada num compartimento tubular com uma mola no fundo. A mola, quando comprimida até certo ponto, era contida firmemente por uma trava. Com o simples apertar de um botão, a trava era liberada e a estaca, lançada.

Mas Celeber entrou em pânico novamente. Os piquetes, haviam sido levados. Aliás, agora que tinha se dado conta. Seu arco, as flechas e todos os seus outros itens, nenhum deles estava com o caçador.

Alguém me deixou aqui para morrer! – a assustadora conclusão tomou sua mente. A perna machucada e a ausência das armas confirmavam tudo. Mas porque teriam feito isso?

Não podia pensar nessas coisas agora. Tinha que pensar em sair dali em segurança.

Talvez, quem quer que tenha feito isso, tenha esquecido de alguma coisa! – passou a vasculhar seus bolsos mais escondidos. Com alívio, encontrou um volume num compartimento da calça, localizado na parte da vestimenta que cobria o terço superior da cauda.

Subitamente, o enorme predador virou o pescoço na direção do trodonte. O sangue do caçador congelou. A criatura deu um passo em sua direção, e Celeber sentiu o chão tremer. O trodonte tentava tirar, com desespero, o que estava encaixado naquele bolso da cauda. A criatura se aproximava cada vez mais. Celeber passava a se arrastar instintivamente para longe dela, chegando bem próximo do lago. O enorme predador já estava a alguns metros, quando o caçador, com o coração disparando, finalmente conseguia tirar o item guardado em seu bolso justo.

Assim que removeu o objeto do bolso, este se acendeu. O que Celeber esperava que o salvasse era um frasco com um óleo incandescente, assim como o piquete, uma das armas dos caçadores. Na base do frasco, uma tira com fósforo estava colada – quando o tubo era removido do bolso, a tira se atritava com um anel áspero na boca do bolso, sendo acesa imediatamente.

A criatura que ameaçava Celeber estranhou aquela fonte de luz em sua mão direita, mas se deteve por só um instante. Avançou na direção do trodonte.

Te peguei! – falou em pensamento o caçador, esboçando um sorriso e atirando o frasco no dinossauro. O recipiente se chocou no peito do animal, quebrando-se e espalhando o líquido em sua fronte, que imediatamente ficou em chamas. A criatura, com a dor da queimadura, cambaleou e caiu no chão, esfregando os braços de maneira desajeitada contra o peito, querendo se livrar do enorme incômodo.

Celeber levantou-se como pode, e, arrastando a perna machucada, se afastava triunfante, porém ainda não totalmente seguro. Novamente os pensamentos do que havia acontecido voltaram à sua mente.

Os figos! – a verdade veio como um relâmpago em sua cabeça. Não podia ser uma coincidência. Alguém havia intencionalmente envenenado os figos com alguma substância entorpecente. Esse alguém provavelmente teria sido a mesma pessoa que havia carregado ele até aquele local, próximo do predador – ou quem sabe, do caminho que ele seguiria. O agressor teria tirado todas as suas armas e machucado sua perna, para garantir que ele não sobrevivesse ao encontro com a fera.
Será que esse agressor terá feito a mesma coisa com os outros? – pensou o caçador. Mas seria muito mais fácil envenenar os figos com alguma toxina mortal, se o objetivo fosse matar todos os caçadores. Provavelmente ele era o único alvo. Pensou se isso teria sido obra de algum rival, que desse jeito o mataria sem deixar nenhuma pista do crime.

Já se aproximava da linha das árvores. Olhou para trás e viu o predador se levantando. Calculou rapidamente que poderia se esconder com facilidade antes da criatura alcança-lo novamente.
Subitamente, Celeber ouviu um zunido, e foi ao chão novamente. No solo, se deu conta que havia sido atingido por uma flecha no peito.

O caçador nem teve muito tempo de pensar no que havia acontecido. A dor e o medo o tomavam por completo, enquanto a criatura se aproximava novamente, a não menos que cinco metros das árvores.

Ele ainda está aqui… - concluiu Celeber, com suas últimas forças. Arrastou o rosto com dificuldade no chão, tentando localizar o agressor. Viu apenas um vulto entre algumas árvores, que rapidamente se foi. Observou então a sombra do enorme carnívoro lhe cobrir, impotente e sem mais nenhuma esperança de sobreviver.

Com o movimento característico de pegar um peixe, tal qual fariam os ursos dezenas de milhões de anos depois, o grande Baryonyx puxou o caçador com apenas uma mão. Abocanhou seu corpo no ar, matando-o instantaneamente com o primeiro fechar das mandíbulas.

sábado, 26 de julho de 2008

Trodonte - Capítulo 3

Enquanto observavam, a algumas dezenas de metros de distância, um grupo de estegossauros abocanhando folhas de um arbusto, Celeber e Decus tiravam de suas mochilas de couro os figos dos quais fariam a refeição da tarde. Sem interromper a conversa, os dois trodontes se alojavam apropriadamente, cada um em um galho. Ambos tinham as visões, tanto do bando de dinossauros perseguidos, quanto do grupo de caçadores que guiavam.

- E você acha que conseguiríamos abater os dois filhotes? – perguntou Decus, o trodonte designado como Monitor do grupo. O assistente de Celeber, que era efetivamente o líder da expedição, referia-se claramente aos dois filhotes de Baryonyx que o grupo havia avistado no dia anterior.

Não só os herbívoros, mas também os carnívoros eram caçados pelas equipes da Guilda dos Caçadores – embora sua utilização fosse deveras diferente: as ferozes criaturas eram usadas prioritariamente como guardas das grandes propriedades, e como oponentes de gladiadores nas arenas. Evidentemente, a caça de filhotes era muito mais fácil que a dos dinossauros adultos. Além disso, o adestramento de dinossauros carnívoros adultos era praticamente inviável.

- Eu creio que sim. – respondeu Celeber ao companheiro, enquanto tirava de sua mala de couro, os figos dos quais a dupla faria a refeição da tarde. Logo entregou a Decus três ou quatro deles. – Precisamos apenas arrumar um jeito de separar os filhotes dos pais.

Os dois continuavam a conversa, debatendo agora não só as estratégias para caçar o grupo de estegossauros, como também para pôr as mãos naqueles dois filhotes de Baryonyx – uma oportunidade que havia surgido durante a expedição e que, dado o valor comercial da espécie de carnívoro em questão, não podia ser ignorada. Saboreavam os figos com calma, sem deixar de prestar atenção aos movimentos do bando de estegossauros. Afinal, qualquer um deles poderia disparar em direção do grupo de caçadores, sem motivo aparente.

Foi então que, abaixo deles, no solo, surgiu repentinamente Thescella. A trodonte parecia cansada, ofegando enquanto apoiava-se numa árvore. Celeber e Decus se entreolharam, e desceram rapidamente da árvore sobre a qual estavam.

- Thescella, você está bem? – perguntou com sincera preocupação Celeber. Decus tirava, enquanto isso, uma moringa com água de sua mala de couro.

- Os figos… - disse a trodonte, com muito esforço. Logo perdeu seu apoio e foi ao chão, apoiando-se com a outra mão. Os dois trodontes se entreolharam, ainda processando o que ela havia dito. – Não com… Mmmph…

Thescella tentou completar a frase, mas, sem forças, foi aos braços de Celeber, que a segurou como pôde.

- Thescella, o que você tem? Thescella! – disse o dinossauro, tentando acordar a caçador. Tentava posicionar o corpo da jovem, e estranhou que o Monitor não estivesse ajudando-o. Atento à desfalecida, chamou pelo companheiro. – Decus, me ajude aqui!

Entretanto, o amigo de Celeber olhava aos arredores, parecendo como se estivesse tentando elaborar uma estratégia. O famoso caçador, vendo isto, estranhou. Não entendia por que ele não o ajudava com Thescella, que parecia ter sofrido um mal-estar.

- Os figos estão contaminados! – disse subitamente Decus. Celeber caiu na real. Thescella tinha tentado avisa-los antes de desmaiar. E ele, tão preocupado com a conterrânea, não atentou às suas palavras, convencido de que ela havia sofrido apenas um mal-estar. – Eu vou ver se todos estão bem, me ajude a subir!

Celeber ajudou seu companheiro a escalar novamente a árvore. Mas mal subiu nela, Decus sentiu seus braços fracos. Os figos contaminados estavam fazendo efeito. Soltou-se da árvore e se concentrou, tentando inutilmente não desmaiar.

- Decus! – exclamou Celeber. Sabia muito bem dos perigosos que os dois corriam ali, se fossem encontrados por predadores. E logo ele também desmaiaria, embora tivesse comido apenas um dos figos. Em seus braços, o Monitor esforçava-se para falar. – Deixe-me aqui, leve só a garota! Antes que você também desmaie!

Apesar da experiência, o famoso caçador estava assustado. Nunca havia passado por isso antes. Decus desmaiou em seus braços. Lembrou-se rapidamente das regras: “se o grupo estiver parcialmente incapacitado, todos devem ficar juntos e num lugar protegido, para melhorar as condições de sobrevivência.”. Mas como aplicaria as normas da Guilda numa situação como aquela? Provavelmente, todos estariam desfalecidos àquele hora.

Seu amigo havia pedido-lhe que levasse apenas a jovem Thescella, mas Celeber não podia deixa-lo. Com razoável esforço, começou a arrastar os dois trodontes até a clareira onde o grupo se encontrava. Eram só algumas dezenas de metros, mas pareciam quilômetros para o Mestre de Caça. Ainda sem avistar a clareira, começou a sentir a fraqueza que os figos contaminados lhe causavam. Dobrou os esforços. Faltavam apenas alguns metros. Quando chegou perto do grupo, caiu no chão, tonto e ofegante.

Seus olhos pesavam. Não podia mover um músculo sequer. Sem forças, adormeceu.


O grande lago no centro da floresta de coníferas era o ambiente perfeito para que um bando de dinossauros bico-de-pato matassem a sede. O Baryonyx, nas margens do outro lado, não os preocupava. De todo o modo, o carnívoro os ignorava, enquanto tentava arrancar, com custo, os restos de alguma criatura que estavam presos debaixo de um tronco.

A dez ou quinze metros dele, um trodonte estava caído no chão.

Celeber abriu os olhos, entorpecido. A luz lhe ofuscou a vista por um momento. Pensou por um momento em que lugar estaria. Sentiu a areia grossa das margens do lago em seu rosto, e a brisa característica. A mesma lhe trouxe os odores de carne apodrecida. Pô-se em alerta, e virou a cabeça lentamente na direção oposta. Arregalou os olhos , enquanto um medo avassalador tomou sua face por completo.
Viu então o Baryonyx, que acabava de remover aquele pedaço de carne apodrecida de debaixo tronco, e engoli-lo.

sábado, 24 de maio de 2008

Trodonte - Capítulo 1

Norte da Inglaterra - Cretáceo, 65 milhões de anos atrás

Em uma das muitas florestas de coníferas que cobriam o planeta ao final do cretáceo, um distinto grupo de dinossauros conscientes parava por um momento para um breve descanso.
Pertencentes à raça dos trodontes, esses dinossauros lembravam um pouco o animal do qual haviam evoluído, o Troodon. Os olhos ainda eram avantajados, mas em comparação aos dos seus ancestrais, estavam mais cobertos pela carne dos músculos ao redor, adicionando agressividade à fisionomia dos indivíduos. As pupilas permaneciam com a forma alongada, determinando-os definitivamente como répteis. A cauda havia diminuído consideravelmente, tornando-se mais um membro robusto que um elemento que ajudasse o dinossauro a correr com o corpo alongado na horizontal – mesmo porque os trodontes não mais andavam nesta posição, e sim de forma ereta. Os braços e o tórax apresentavam mudanças mais aparentes – haviam se tornado maiores e mais musculosos, acompanhando as necessidades dos trodontes em evolução. Já o focinho era mais retraído do que o dos ancestrais, tornando a forma do crânio mais compacta e menos alongada.


O curioso grupo vestia roupas de couro de diferentes cores, de diferentes animais caçados em torno de todo o mundo. Essas roupas, tais quais as roupas humanas, destinavam-se primariamente à cobertura das pernas e do tórax, com a diferença que as calças desses dinossauros possuíam uma terceira abertura, de diâmetro um pouco maior, para a cauda.
Diversos apetrechos pendiam das vestimentas do grupo, mas predominava a visão das armas que cada trodonte carregava consigo. Arcos longos e curtos, aljavas repletas de flechas, escudos, espadas curtas e longas, atiradeiras, dentre outras. Todo esse aparato, dada a época e a natureza de seus possuidores, tinha apenas uma explicação: eram caçadores.
Dos dez indivíduos que constituíam esse grupo, apenas um era do sexo feminino. A aparência das trodontes não era muito diferentes da dos trodontes, apenas os traços do rosto eram mais finos e delicados e os músculos eram bem menores. Mas o porte mais esguio conferia agilidade à elas, algo que poderia ser tão ou mais importante numa luta que a força física.
O nome da trodonte era Thescella Struthi. Extremamente bonita para os padrões desses dinossauros, suas escamas eram marrons e beges (enquanto boa parte do grupo tinha as escamas marrons e verdes), definindo sua origem como do Extremo Leste. O brilho de suas cores caracterizava-a, também, como uma jovem. Apesar de tudo isso, aquela jovem era tão ou mais experiente quanto todos os caçadores que a acompanhavam


O grupo de caçadores aproveitava a pausa comendo figos, uma das frutas que já existia no cretáceo. Já estavam em caçada há uma semana, e esta já se mostrava produtiva. Dois estegossauros havia sido habilmente separados do bando e abatidos, mais ainda faltava encontrar um dos ninhos das criaturas para coletar seus ovos.
Dois dos caçadores, provavelmente os mais experimentados e ao mesmo tempo os mais esforçados, conversavam animadamente sobre como haviam se saído no dia anterior, sendo que um deles havia dado o golpe final numa das criaturas.

- Pois então, você viu o ponto exato que a minha flecha perfurou o tórax do estegossauro? – disse um deles, cortando um pedaço de figo e engolindo-o, quase sem mastigar.

- Bem, eu não vi exatamente na hora em que você atirou, eu estava do outro lado. Mas sim, depois eu vi o ferimento, bem acima do ombro, antes de darmos o golpe de misericórdia. Mas por que você não acertou a cabeça primeiro? – perguntou o segundo caçador, enquanto procurava algo em sua mochila.

- A cabeça do estegossauro é pequena. – continuou, gesticulando com as mãos, quase como um professor empolgado – É aí que entra minha teoria.

O segundo caçador fez uma cara de leve surpresa, mas no fundo desconfiando das habilidades do colega. Tirou então uma moringa da mala, junto de dois copos. Serviu a si mesmo e ao falante colega de água, pegando então um figo e cortando-o para melhor mastiga-lo.

- Bem, na verdade, minha teoria não – seguiu na explanação o primeiro caçador. – Já encontrei muitos caçadores que dizem ter caçado estegossauros do mesmo jeito. A teoria diz que existe um ponto fraco logo acima do ombro desse dinossauro. Você viu o quão rápido ele caiu, logo com a minha primeira flecha?

O companheiro assentiu com a cabeça. Era verdade, o estegossauro havia caído excepcionalmente rápido para uma flecha que havia acertado o ombro.

- E você disse algo sobre isso… - foi então que o segundo trodonte sentiu uma repentina sonolência. Estranhou muito aquilo. Esfregou os olhos, mas de nada adiantava. Agora parecia meio tonto, entorpecido. Logo sua visão começava a falhar.

- Você está bem? – perguntou o primeiro trodonte. Segurou o amigo com as duas mãos pelos ombros, um segundo antes dele desmaiar em seus braços.

Confuso, o primeiro trodonte, então, começou a sentir o mesmo que o amigo. Ficou em pânico ao olhar em volta. Haviam mais dois do grupo caídos. Ele botou o companheiro no chão e tentou alguns passos, mas caiu no chão, desfalecido. Antes de cair, olhou para a mão do companheiro, e então entendeu a causa daquilo: os figos.

sábado, 26 de abril de 2008

Prólogo - O desenvolvimento de uma civilização

Foram necessários apenas alguns milhões de anos (diante das proporções titânicas das eras geológicas) para que aquelas criaturas da savana despertassem para a consciência.

Mas esse despertar, de forma alguma, não foi precedido por grandes saltos evolutivos que acabaram, muito tempo depois, por definir o que é um animal, e o que é um ser inteligente. Dentre eles, um dos dedos opondo-se aos outros, permitindo o manuseio de objetos, de armas, de equipamentos. Também a caça em conjunto, potencializada pela visão binocular dos indivíduos, cada vez mais aguçada e permitindo a melhor percepção da profundidade. Outro exemplo, a capacidade de se comunicar, de criar e transmitir cultura através das gerações.

Após esse despertar, passaram-se alguns milhares de anos. Foi descoberto o fogo, a cerâmica, entre outros artifícios. Conjuntamente chegou a época em que aquelas criaturas se organizavam em numerosas tribos, aumentando a capacidade de sobrevivência em meio ao ambiente hostil, repleto de bestas de dentes afiados. As tribos não demoraram a se tornar cidades, quando aquelas criaturas descobriram que podiam plantar seus próprios vegetais, em vez de colhê-los. Ou mesmo criar, em vez de caçar, os pequenos animais do qual obtinham a nutritiva carne.

Até mesmo os assustadores monstros, não pareciam mais tão assustadores assim, quando criados desde o nascimento. As espertas criaturas da savana não mais precisavam caminhar, pois montavam nas bestas mais ágeis, ou mesmo nas mais portentosas. E as que não podiam ser domesticadas, eram caçadas por aqueles que não as temiam – aqueles que mantinham sua conexão com o passado animalesco, mas bem faziam uso de sua inteligência para permanecerem sempre como caçadores, e nunca como caça, em lugares nos quais, para a maioria daqueles da cidade, isso parecia impossível.

Passados mais alguns milhares de anos, eles se espalharam aos milhões pelas extensões continentais. As cidades cresceram e prosperaram, formando metrópoles onde os indivíduos produziam e comercializavam incessantemente. A tecnologia se desenvolvia lenta, mas continuamente. O mesmo acontecia com a guerra. Finalmente veio a interessantíssima época em que aquelas criaturas colidiam suas espadas, atiravam suas flechas e montavam suas bestas magníficas em nome de poderosos impérios.

Era então um mundo em pleno desenvolvimento, mas ainda em grande parte inóspito e perigoso. Aquelas criaturas haviam adquirido a inteligência, haviam se reunido e prosperado em seus domínios, mas ainda eram inocentes como civilização. Tal qual se repetiria, muito tempo depois.

Afinal, aquelas criaturas viveram 65 milhões de anos antes do primeiro homem.