Ao longo da década de 2030, as mudanças climáticas que haviam começado dez anos antes se agravaram. Teoricamente preocupados com o futuro da humanidade, um grupo de cientistas se juntou no chamado Projeto Centauri, uma instituição internacional que buscava unicamente o desenvolvimento de espécies resistentes às condições de vida cada vez mais severas em algumas partes do planeta, por meio da manipulação genética. Embora negasse, a organização também realizava experiências com seres humanos geneticamente modificados, algo proibido por praticamente todos os governos do planeta.Paralelamente, a Corporação Axis continuava a crescer desenfreadamente. Em 2037, atingiu a impressionante marca de meio bilhão de empregados diretos e indiretos. Dada sua influência no governo da Austrália, com executivos ocupando a maioria dos cargos políticos, inclusive o de primeiro-ministro e o de governador-geral, a Corporação Axis inevitavelmente tomou o poder do país para si no final de 2039, criando o primeiro governo por parte de uma empresa privada do mundo.
Enquanto isso, em maio de 2040, os cientistas do Projeto Centauri começavas seus primeiros experimentos secretos com colônias de humanos geneticamente modificados. Localizadas principalmente nos desertos do Saara e do Mojave, nos EUA, e na floresta amazônica, as criações desses cientistas eram variadas, mas o experimento de maior êxito foram os chamados elfos.
Os elfos, humanos de pele esverdeada, com a incrível capacidade de realizar a fotossíntese (em níveis muito mais produtivos que o das plantas), eram a principal aposta dos cientistas para que a humanidade sobrevivesse aos efeitos do aquecimento global. As colônias dos elfos eram extremamente bem escondidas, uma exigência dos idealizadores do projeto, dada a clandestinidade dos experimentos realizados.
Apesar das surpreendentes (e moralmente duvidosas) criações do Projeto Centauri, a mesma ficaria conhecida no mundo inteiro por outros motivos. Em dezembro de 2042, uma misteriosa epidemia se iniciaria na cidade de São Paulo. Os acometidos pelo chamado vírus Zaph se transformavam em seres animalescos, inconscientes, que buscavam apenas saciar seus instintos mais básicos, se alimentando de carne (na maior parte das vezes, humana). Centenas de milhões de pessoas foram vitimadas. Era como se o pesadelo dos filmes de terror do século 20 sobre zumbis houvesse se tornado a mais pura realidade.
Com o alastrar da epidemia por toda a extensão do continente sul-americano e até mesmo parte da África, os cientistas do Projeto Centauri foram imediatamente responsabilizados, embora não se pudesse provar a culpa dos mesmos no incidente. O projeto foi encerrado oficialmente em março de 2043, mas continuaram a operar secretamente as colônias de elfos.
Enfrentando extremas dificuldades, os Estados Unidos, a China e a Corporação Axis (agora capaz de rivalizar como superpotência com as duas primeiras), foram capazes de restringir a epidemia do vírus Zaph de se alastrar ainda mais. Porém, as campanhas executadas por essas três potências tinham um segundo objetivo: assegurar a influência de cada uma sobre a floresta amazônica, a última grande fonte de água doce do planeta, capaz de ser extraída. A região brasileira logo se tornou um ponto de tensões entre os EUA, a China e a maior empresa privada do mundo.
A lógica baseada em erros consistia de uma programação que gerava, aleatoriamente, vontades, medos e diferentes tipos de emoção, dependendo do que o robô experimentasse desde o momento em que havia sido ligado. Obviamente, tudo era simulado, mas essa simulação era tão perfeita, que não chegava a se diferenciar um gesto de carinho executado por um robô, daquele executado por um ser humano. De um simples medo de aranhas até uma complexa paixão, essa nova geração de andróides era capaz de simular qualquer ato aparentemente exclusivo de um humano.
A aceitação desse novo modelo foi imediata. Especialistas acreditam que, talvez principalmente com o advento da Ultranet, tenha se criado uma nova geração extremamente introspectiva, incapaz de interagir com a sociedade real, e daí estaria explicada a boa recepção desse novo tipo de robô, que tecnicamente era inferior aos antigos. Vale lembrar que, mesmo com a lógica baseada em erros, os andróides ainda deviam obedecer às três leis. Assim, em casos extremos, os novos modelos eram como os robôs antigos.
Temerária quanto à modificação desses novos robôs e a negação das três leis, a Corporação Axis mantinha um rígido controle sobre os andróides vendidos. Chegou-se ao ponto de que não era permitida a venda dos mesmos a qualquer pessoa que possuísse mínimos conhecimentos em programação e robótica.
Entretanto, o sistema de segurança não era, nem poderia ser, perfeito. Em 15 de fevereiro de 2044, o engenheiro italiano Antonio Grimaldi anunciou que havia modificado cerca de 14 robôs do novo modelo, para que não obedecessem às três leis.
O engenheiro, judeu, era um notório defensor da causa de seu povo. O Estado de Israel havia sido completamente destruído na guerra nuclear da década de 2010. Grimaldi lutava pela criação de um novo Estado de Israel, dessa vez na Europa, que reunia algumas das últimas terras férteis do planeta. Ignorado, ele surpreendeu o mundo com seu anúncio da alteração dos robôs, e disse que, se suas exigências políticas não fossem atendidas, os robôs seriam ligados.
Assim como suas exigências nunca foram atendidas , o engenheiro Antonio Grimaldi nunca foi encontrado vivo, e os robôs inevitavelmente foram acionados em janeiro de 2045. O que se viu a seguir foi um surpreendente levante das máquinas, com a fundação da República dos Robôs, tomando grande parte das frias terras russas. Esse incrível crescimento se deu nos quinze anos seguintes.