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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O valor de uma vida humana


Imagine que duas pessoas estão correndo risco de vida, e que você só possa salvar uma delas. Quem você salvaria? Que características afetariam sua escolha?
É claro que, se esse experimento mental que estamos fazendo fosse real, a escolha seria muito mais afetada pela tensão do momento, e pelas nossas instáveis emoções. Esse não é o ponto do texto. Quero pensar em qual seria a melhor decisão racional num caso desses, a decisão não afetada pelo calor do momento.
O senso comum nos diz que, na maioria dos casos imagináveis (em termos de combinação de nossas duas "vítimas") é uma decisão extremamente cruel, que muitos optam por não fazer. De fato o é. Exceto para alguns casos, por exemplo, o que estão envolvidos uma criança e um adulto (a prioridade acaba se tornando a criança, segundo nossos valores éticos e morais), qualquer escolha de parâmetro de diferenciação pode ser considerado equivocado. Pensando num caso parecido: se um idoso e um adulto corressem risco de vida, quem você salvaria? Quem defendesse o salvamento do idoso poderia alegar que ele deve ser priorizado justamente pela sua idade avançada; quem defendesse o salvamento do adulto, poderia sugerir que o idoso estaria próximo da morte, e o adulto "teria mais vida pela frente".
Eu acredito que os valores que geralmente são considerados são muito subjetivos, e justamente por isso entram tanto em conflito. O que eu quero sugerir é: seria possível determinar valores para as vidas das pessoas, a fim de tornar essa análise "mais fácil"? Em suma, seria possível determinar o valor de uma vida humana?
Mas que parâmetros seriam utilizados nessa determinação?
Embora isso possa parece assustadoramente materialista, o que eu sugeriria (mas não exatamente defenderia) como variável para determinar o valor da vida de uma pessoa giraria em torno do quanto ela pode produzir. Não só no tempo presente, mas durante toda a sua vida futura.
Lembrando novamente do pensamento racional no caso, então estamos ignorando, de certa forma, nossos valores éticos e morais - só porque eles entram exageradamente em conflito num caso desses. As duas pessoas que estão "em perigo" em nosso exercício não tem nada a ver com nós. Qual seria a única influência dessas pessoas em nossas vidas? Poderíamos entender que estas pessoas apenas influenciam a sociedade em que vivemos, com aquilo que elas produzem. Elas são "apenas" duas adições diferentes ao PIB do nosso país, todo ano.
Se seguirmos essa linha de pensamento, poderíamos fazer algumas comparações, indo para diversos pontos.
O primeiro seria a comparação entre a criança e o adulto - a criança ganha pois tem muitos anos de vida mais pela frente (probabilisticamente falando) que o adulto. Ou seja, ela pode produzir mais para a sociedade em geral, em termos absolutos, que o adulto, que já produziu parte do que poderia produzir em sua vida. Entretanto, se pensarmos a curto prazo, o adulto produz mais que a criança, que ainda precisa completar sua formação (ou mesmo tê-la) até ser produtivo para a sociedade.
Outro caso, mais polêmico, seria comparar uma pessoa instruída, com outra não instruída. A pessoa com, vamos supor, um diploma acadêmico, seria teoricamente mais produtiva que aquela que só tivesse o Ensino Fundamental completo. Poderíamos usar o salário desses indivíduos como indicador do quanto ela pode produzir para a sociedade (embora isso possa não ser muito preciso). Não se trata de um pensamento elitista - se vivêssemos num mundo ideal, com as mesmas oportunidades para todos, aqueles que tivessem mais quantidade de conhecimento acumulado (ou seja, pudessem produzir mais para a sociedade como um todo), ainda assim teriam suas vidas "valendo mais".
Se compuséssemos todas essas considerações (o que é bem difícil), teríamos um modelo de quanto valeria a vida de cada pessoa. Baseando-se em quantos anos de vida ela tem (e, complementarmente, quanto tem pela frente, fazendo uma análise probabilística de sua vida futura), na quantidade de conhecimento acumulado, no seu estilo de vida, etc, poderíamos criar esse modelo, tudo girando em torno do que essa pessoa é capaz, no futuro, de gerar para a sociedade.
Essa análise pode parecer demasiado fria (e na verdade é), mas me pergunto se pensar assim não estaria "em vigor", sem nos darmos conta disso. Lembro-me de um caso que exemplifica bem essa linha de pensamento.
Durante a Primeira Guerra Mundial, surgiram os primeiros aviões de combate (e isso pouco tempo depois do avião ser inventado). Os pilotos não tinham nenhuma forma de ejetar dos aviões caso estivessem prestes a cair. Hoje em dia, para os pilotos de caças, esse sistema é bastante comum. O que mudou? Os generais e engenheiros militares tornarem-se mais conscientes? Na verdade, o que aconteceu é que houve uma valorização grande do piloto - enquanto qualquer um seria capaz de pilotar uma das máquinas voadoras do começo do século 20, um caça exige anos de estudo e treinamento. As autoridades não podem se dar ao luxo de perder um piloto de caça - ele é experiente demais. Há valor agregado à ele, pelos conhecimentos adquiridos. É possível traçar um paralelo com o caso do indivíduo instruído e o não instruído a partir dessa situação.
O que quero, com esse texto, não é defender a adoção desses parâmetros para definir o valor da vida das pessoas. É apenas pensar se não faria sentido esse raciocínio, de certa forma.

sábado, 26 de abril de 2008

Prólogo - O desenvolvimento de uma civilização

Foram necessários apenas alguns milhões de anos (diante das proporções titânicas das eras geológicas) para que aquelas criaturas da savana despertassem para a consciência.

Mas esse despertar, de forma alguma, não foi precedido por grandes saltos evolutivos que acabaram, muito tempo depois, por definir o que é um animal, e o que é um ser inteligente. Dentre eles, um dos dedos opondo-se aos outros, permitindo o manuseio de objetos, de armas, de equipamentos. Também a caça em conjunto, potencializada pela visão binocular dos indivíduos, cada vez mais aguçada e permitindo a melhor percepção da profundidade. Outro exemplo, a capacidade de se comunicar, de criar e transmitir cultura através das gerações.

Após esse despertar, passaram-se alguns milhares de anos. Foi descoberto o fogo, a cerâmica, entre outros artifícios. Conjuntamente chegou a época em que aquelas criaturas se organizavam em numerosas tribos, aumentando a capacidade de sobrevivência em meio ao ambiente hostil, repleto de bestas de dentes afiados. As tribos não demoraram a se tornar cidades, quando aquelas criaturas descobriram que podiam plantar seus próprios vegetais, em vez de colhê-los. Ou mesmo criar, em vez de caçar, os pequenos animais do qual obtinham a nutritiva carne.

Até mesmo os assustadores monstros, não pareciam mais tão assustadores assim, quando criados desde o nascimento. As espertas criaturas da savana não mais precisavam caminhar, pois montavam nas bestas mais ágeis, ou mesmo nas mais portentosas. E as que não podiam ser domesticadas, eram caçadas por aqueles que não as temiam – aqueles que mantinham sua conexão com o passado animalesco, mas bem faziam uso de sua inteligência para permanecerem sempre como caçadores, e nunca como caça, em lugares nos quais, para a maioria daqueles da cidade, isso parecia impossível.

Passados mais alguns milhares de anos, eles se espalharam aos milhões pelas extensões continentais. As cidades cresceram e prosperaram, formando metrópoles onde os indivíduos produziam e comercializavam incessantemente. A tecnologia se desenvolvia lenta, mas continuamente. O mesmo acontecia com a guerra. Finalmente veio a interessantíssima época em que aquelas criaturas colidiam suas espadas, atiravam suas flechas e montavam suas bestas magníficas em nome de poderosos impérios.

Era então um mundo em pleno desenvolvimento, mas ainda em grande parte inóspito e perigoso. Aquelas criaturas haviam adquirido a inteligência, haviam se reunido e prosperado em seus domínios, mas ainda eram inocentes como civilização. Tal qual se repetiria, muito tempo depois.

Afinal, aquelas criaturas viveram 65 milhões de anos antes do primeiro homem.

sábado, 19 de abril de 2008

A escola de cartografia chinesa e o "efeito Royal"




Nos tempos do Clã Z Warriors (pra quem não se lembra ou não conhece, era um fórum da internet ao qual me juntei há uns 5 anos, e que fez com que eu conhecesse o pessoal do NAY), me lembro de ter lido, certa vez, um tópico genial no fórum, criado pelo Rafael "Papito ZW" (que aliás, criava os melhores tópicos).

Nesse tópico, ele contava uma história que uma professora dele tinha passado em aula (na época ele fazia o curso de publicidade e propaganda). Achei tão interessante a história, que guardei ela na memória. Fui estúpido de não ter salvo o texto original, confiando que ele não se perderia na internet, mas pelo menos me lembro qual era a idéia dele. Vou tentar reproduzí-lo aqui:



"Conta a lenda que existia, na China antiga, uma famosa escola de cartografia, cujos estudiosos eram responsáveis pelos melhores mapas que o mundo já tinha visto.

Certa vez, os cartógrafos da escola decidiram elaborar um mapa-mundi, contendo todas as informações que possuíam, nos mínimos detalhes possíveis. Seria a obra-prima da escola. A tarefa foi árdua, mas ao final dela todas as nações, províncias e cidades estavam mapeadas.

Depois de um tempo, os cartógrafos ficaram descontentes. O mapa-mundi que eles haviam criado abrigava todas as extensões do globo conhecidas, mas os detalhes incluídos não lhes pareceram suficientes. Eles então decidiram aprimorar o mapa, desenhar cada casa, cada poço, cada estrada. Novamente eles haviam se superado.

Mas o tempo foi passando, e novamente também o mapa pareceu obsoleto. Eles decidiram aprimorá-lo ainda mais. Desenhar cada pessoa, cada animal, cada planta. Então surgiu mais uma vez um novo mapa atualizado do globo.

E assim se sucedeu por muitos e muitos anos. Assim que terminavam uma nova atualização do mapa, os cartógrafos percebiam que faltava algum detalhe. Podia ser a posição exata de uma casa, a altura de uma pessoa, ou mesmo as engrenagens de um escorpião [essa parte eu me lembro do texto original - tente abstrair a elaboração do mapa não como um desenho 2D, a idéia mais importante é que o mapa é uma representação fiel da realidade]. Então jogavam-se novamente ao trabalho de atualizar o mapa.

Depois de um certo tempo, a escola de cartografia teve que fechar suas portas. Por que isso aconteceu?"




Agora, o texto não tinha uma resposta exata, cabendo ao leitor elaborar sua própria resposta para a pergunta, o porquê da escola ter fechado. Eu não me lembro da resposta do Rafael, mas lembro da minha. Ela é bem fria e lógica, talvez não tenha nada a ver com os intentos da professora do Rafael... Por isso mesmo eu proponho que dêem suas próprias respostas ao "enigma" nos comentários, talvez bem mais interessantes que a minha.

Bom, aí vai:

A escola teve que fechar simplesmente porque os cartógrafos, ao buscarem a perfeição na elaboração do mapa, esqueceram que tinham que reproduzir o próprio mapa dentro do mapa. E isso nos leva a uma indução infinita: o mapa deveria conter uma representação dele mesmo. Mas essa representação deveria conter outro mapa, e assim por diante - cada vez que é feita um representação nova "dentro do mapa ", a realidade muda e é preciso representá-la corretamente. Diante do impasse, os cartógrafos decidiram fechar a escola. Vamos chamar isso, daqui por diante, de "efeito Royal" (créditos à Bibi pelo nome).

Vou arriscar aqui uma definição que poderíamos bolar do tal "efeito Royal":

"Efeito Royal: Fenômeno que ocorre quando tenta-se produzir ou reproduzir algo que contenha a própria produção ou reprodução, gerando uma seqüência infinita."

Agora, podemos incluir algumas coisas fáceis de se reconhecer onde ocorreria o efeito Royal. Na microfonia por exemplo. O microfone capta os sons e os transmite até a reprodução, na caixa de som. Se a distância do microfone até a caixa de som for suficientemente pequena, e o volume de reprodução da caixa do som for, paralelamente, suficientemente grande, o som "adicional" que chegar até o microfone reproduzido pela caixa de som será captado e retransmitido novamente, gerando uma seqüência infinita. Claro que o volume reproduzido pela caixa não é infinito, mas o máximo de volume é facilmente atingido, gerando o barulho desagradável.

Outro exemplo, seria pensarmos numa disputa entre dois adversários, A e B. Suponhamos que B faça uma jogada X, à qual o jogador A tem que responder, pensando se ela é um blefe ou não. O jogador A pode pensar "Ah, o jogador B deve ter feito isso para me enganar; essa jogada com certeza é um blefe.". Mas ele pode também pensar "Humm, mas e se ele anteveio meu pensamento, e fez essa jogada, que não é um blefe, justamente prevendo que eu pensaria que o é?". Ou pode muito bem pensar "Ele deve ter presumido os dois pensamentos anteriores que eu teria e ter feito a jogada de blefe para me enganar". E assim por diante. Se julgasse o jogador B tão inteligente assim, o jogador A veria que essa linha de pensamento torna-se inútil por alternar tantas vezes entre o blefe e o não-blefe do jogador B, e ser impossível determinar exatamente onde o jogador B teria "parado".

Finalmente temos os exemplos com imagens, que com certeza todos já vimos em alguma publicação, afinal é gerado um efeito gráfico muito interessante:







O primeiro eu fiz com a webcam mesmo, tirando uma foto do próprio monitor com a janela aberta, bem manjado. O segundo é uma montagem com nosso amigo João (aliás agradecimentos a ele por ter autorizado o uso da foto, heheh) que eu fiz já faz um tempo.

domingo, 6 de abril de 2008

Defina "vida". Justifique sua resposta.

A nanotecnologia promete hoje incríveis avanços tecnológicos para o futuro. Sem entrar muito nessa ciência, ela consiste da manipulação dos átomos, os “blocos primordiais” de toda a matéria existente, na construção de novos materiais, componentes, e até mesmo máquinas em um nível nanométrico (“nano” é o prefixo usado para denominar um bilionésimo – um nanômetro, ou simplesmente nm, seria igual a 0,000000001 m).

Ainda é uma ciência em seus primórdios, mas assim como com a viagem no tempo, é interessante discutir as possibilidades que nela residem.

Pois bem, analisemos um dos principais focos divulgados pelos cientistas a respeito dessa tecnologia: a construção de nano-robôs, ou seja, robôs em escala microscópica. Esses robôs seriam capazes de atuar dentro do nosso organismo, podendo, por exemplo, se atuassem no sangue, levar oxigênio até nossas células de uma maneira muito eficaz – teoricamente, todo o nosso sangue poderia ser substituído por alguns litros contendo trilhões desses nano-robôs, criando seres humanos surpreendentemente mais vigorosos.

Mas o foco dessa discussão é outra. Primeiro vamos imaginar um desses nano-robôs, só que com outros propósitos. Imagine eles com sensores, suponha a cor cinza que sempre é ligada às máquinas, imagine garras para o movimento e/ou a manipulação em torno de seus “corpos” e pense em qualquer programação interna e capacitação que eles poderiam ter, podendo executar inúmeras tarefas.

Agora, vamos supor que nossa tecnologia, depois de um tempo de uso e experimentação desses nano-robôs, tenha avançado a tal ponto que dentre as tarefas que possam ser executadas por eles, encontra-se a de criar uma cópia exata deles mesmos, a partir da matéria existente no ambiente – átomos de carbono, por exemplo. Criar uma cópia de si mesmo consiste em se replicar. A princípio, podemos considerar muito útil uma programação e uma capacitação desse tipo – afinal, criar algumas dezenas de trilhões de nano-robôs não parece tarefa fácil, considerando o exemplo do uso deles no nosso organismo. Mas você consegue ver o perigo global que apenas um nano-robô desse modelo representaria?

O primeiro nano-robô desse tipo que fosse criado, se não controlado, e se qualquer tipo de material pudesse ser usado por ele na replicação, iniciaria um processo que acabaria por consumir toda a matéria da Terra, transformando-a apenas em nano-robôs. Um exagero? Não se considerarmos a progressão exponencial no crescimento do número de nano-robôs. Um cria outro, que criam dois, que criam 4, que criam 8 e assim por diante. Supondo um tempo razoável de replicação de um dia, teríamos 2¹º = 1024 robôs em dez dias, em 20 dias seriam aproximadamente um milhão, e em 30 dias um bilhão. Em alguns meses seria o fim da Terra como conhecemos, dominada por uma gosma cinzenta de nano-robôs.

Mas por mais interessante e apocalíptico que isso pareça, não é o foco deste texto. Imaginemos que os cientistas sabiamente, ou mesmo por impossibilidade, criem nano-robôs que se repliquem apenas usando certos certos tipos de matéria que pudessem encontrar. Vamos pensar que sejam espécies de matéria não tão raras, mas também não tão comuns em nosso planeta a ponto de que buracos sejam criados por aí por esses nano-robôs em busca de replicação.

Um nano-robô que busca certos tipos de matéria para criar cópias exatas de si mesmo. Podemos notar nitidamente que há uma forte semelhança com qualquer forma de vida existente, que busca, mais que tudo, se alimentar, crescer e então se reproduzir.

Mas não pára por aí. Imaginemos que, na programação desse nano-robô, ele seja instruído a criar de maneira alternada uma cópia idêntica de si mesmo, e uma cópia ligeiramente diferente de si mesmo. Não uma diferença pré-programada, mas algo totalmente aleatório.

Teríamos então simulado o mecanismo da mutação com propósitos evolutivos. A geração aleatória criaria uma imensidão de nano-robôs não funcionais (devido à aleatoriedade do processo de criação de indivíduos ligeiramente diferentes), uma outra imensidão de nano-robôs idênticos ao “nano-robô primordial” e, o mais importante, um indivíduo que seria melhor que o seu criador – seja em velocidade de replicação, seja em mobilidade, seja em capacidade de encontrar os átomos que lhe são necessários, entre outros. Esse indivíduo com o tempo substituiria a “espécie” de seu criador, simplesmente por competição. Tal qual na natureza.

Agora, se não é o bastante, imagine que essa programação dos nano-robôs, que permite a criação aleatória, também crie alterações que eventualmente façam surgir a associação de nano-robôs, diferentes ou iguais, em organismos maiores. Novamente surge a semelhança com a natureza.

Finalmente, imagine a seguinte situação: um extraterrestre visita dois planetas: a Terra, e outro onde existem os nano-robôs no último estágio que discutimos. De quantas formas diferentes de vida estamos falando?

Por enquanto, eu diria três.

sábado, 29 de março de 2008

Não posso voltar no tempo e impedir a postagem desse post, senão eu morro

Certa vez, enquanto bolava histórias pro RPG de Dungeons & Dragons que eu mestro, decidi colocar uma arma futurista, um fuzil laser pra ser mais específico, numa de minhas aventuras. Simplesmente achei que seria interessante colocar uma arma dessas num cenário medieval, e que isso certamente entreteria os jogadores. A solução que encontrei pra colocar aquela arma numa época diferente foi simples, uma viagem no tempo. Só que, lógico, eu teria que pensar em como funcionariam as viagens no tempo no meu mundo.

Quem se interessa pelo assunto, sabe que a viagem no tempo pode ser trabalhada de diferentes maneiras. Por exemplo, no filme De Volta para o Futuro, os personagens que viajam no tempo provocam alterações que criam novas linhas do tempo. O filme é divertido, claro, mas alguns pontos são falhos: certa hora, o protagonista (Marty, se não me engano) olha uma foto de seu túmulo no futuro, e quando faz uma alteração no passado, esse túmulo some, ficando só a foto do gramado. Porque alguém em sã consciência tiraria uma foto da grama da onde deveria estar o túmulo? Além disso, Marty quando volta ao futuro, encontra tudo diferente, sendo que ele não mudou nada. Fora todo o problema de se criar um paradoxo e “destruir o universo”.

Eu tentei bolar uma explicação diferente para como a viagem no tempo funcionaria nas minhas aventuras. Essa explicação parte da idéia de que a linha do tempo é única e que paradoxos não podem existir – de maneira alguma. As viagens no tempo podem até existir, mas um paradoxo não. E como fazer para nunca exista um paradoxo? Simples: o próprio universo se comportaria de uma maneira que impedisse que paradoxos fossem criados ao longo de sua história. Mesmo que isso, alguma vez, parecesse altamente improvável.

Por exemplo, suponhamos que você invente uma máquina do tempo e volte 50 anos para o passado e tente matar seu próprio avô. Você deixaria de existir, afinal seu avô não geraria seu pai ou sua mãe, que não geraria você. E como você teria feito essa viagem para matar seu próprio avô? Seria criado um paradoxo. Para que isso não acontecesse, o universo providenciaria que alguma coisa acontecesse com você antes que consumasse o homicídio. Sua máquina do tempo poderia não funcionar. Ou você poderia nunca encontrar seu avô no passado. Ou no último momento, você poderia simplesmente desistir!

Isso tudo parece muito forçado? Uma força quase divina guiando seus atos para que paradoxos não fossem criados?

Pense no andamento da história. Da sua história ou mesmo da de toda a humanidade. Nossa existência é repleta de possibilidades. Você pode parar de ler esse texto ou continuar a lê-lo até o final. Mas a questão é que você vai fazer apenas uma dessas coisas no futuro. A linha do tempo, pelo menos aquela em que nós vamos viver, é apenas uma. No futuro, todas as nossas decisões já foram tomadas, e nossa sorte já foi lançada.

Agora imagine o andamento de diferentes linhas do tempo possíveis como uma árvore. Tudo começa no Big Bang, que seria o tronco da árvore. Ao longo de toda a história, para cada possibilidade, temos um galho, para cada possibilidade derivada desta, uma ramificação desse galho, e assim por diante, até o topo da árvore, onde estamos, e que continua crescendo, cada vez com novas possibilidades.

Os “caminhos” possíveis nesta árvore que possuam paradoxos, simplesmente não vão existir, pois um paradoxo não pode existir. O que nos sobra? Apenas os galhos onde não há paradoxos. Mesmo que coisas absurdamente improváveis aconteçam numa linha do tempo, se elas forem minimamente possíveis e impedirem a existência de um paradoxo, haverá uma linha do tempo onde essas coisas estarão presentes. Por exemplo, você poderia ganhar na loteria e desistir de viajar no tempo para matar seu avô, simplesmente ficando para aproveitar sua fortuna.

Além disso, vale lembrar que a linha do tempo (pelo menos a que estamos/vamos viver!) é apenas uma. Assim, ainda no caso do assassinato do avô, se a viagem no tempo for efetuada, ela fará parte da linha do tempo, mesmo que ela não cause nenhuma mudança significativa (a morte do avô por exemplo).

Agora, como eu usei isso no RPG. O viajante no tempo, no caso, foi um astronauta vindo de milhares de anos à frente. Ele e sua equipe viajavam à velocidade da luz numa nave espacial, quando acabaram caindo na época “do jogo” (não me preocupei muito em explicar a viagem no tempo em si – apenas como ela funcionava no universo que eu criei; de fato, viajar na velocidade da luz é uma tarefa e tanto, visto que sua massa cresce exponencialmente). Mais precisamente, eles caíram (agora literalmente) numa geleira, e estavam sem combustível. Eles desejam encontrar combustível para a nave e voltar para um ponto no tempo um ano antes de terem partido – encontrando então seus “eus” do futuro – apenas para experimentar como o tempo se comportava. O destino, claro, “tratou” de impedir essa viagem de volta para o futuro – todos os astronautas menos um foram mortos durante a busca pelo combustível, mesmo estando armados com fuzis de tecnologia de ponta, por “lobos das estepes” (um monstro de D&D). O último astronauta chegou a interagir com os jogadores e até mesmo a explicar o intento dele e de seus companheiros – mas acabou sendo morto por um NPC que estava junto do grupo, que apenas desejava roubar sua poderosa arma.

Dessa narrativa percebe-se que, se os astronautas queriam criar um paradoxo (na linha do tempo eles não tinham se encontrado consigo mesmos um ano antes de partir!), alguma coisa teria que impedi-los de faze-lo. E essa coisa poderia ser uma simples desistência , ou a morte de todos eles, que foi o que aconteceu.

Bom, ao bolar a aventura, fiquei empolgado não só com ela, mas como essa idéia poderia explicar a existência de viagens no tempo de uma maneira simples e genial.

Mais tarde acabei descobrindo, porém, que eu não havia sido o primeiro a pensar nessa explicação:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Viagem_no_tempo
Leia a parte do princípio de auto-consistência Novikov, explica justamente essa teoria, apenas não detalha as linhas do tempo teóricas para cada possibilidade em que eu pensei.

Fora isso, fiquei muito surpreso (e agora estou na expectativa) quando passei a assistir a quarta temporada de LOST. É possível que esta teoria esteja sendo utilizada quando foi incluído o conceito de viagem no tempo na série, e mais, pode ser que isso seja a explicação para muitas coisas. Basta pensar, LOST é a terra das coisas improváveis. Sem querer dar muitos spoilers, um personagem tenta se matar jogando um carro contra um muro, e “milagrosamente sobrevive”, segundo a enfermeira que posteriormente cuida dele. Tenta de novo com uma arma totalmente carregada, e ela simplesmente falha! “A Ilha não vai deixar você se matar”, lhe diz outro personagem. Mesmo que o primeiro personagem tentasse atirar várias vezes na cabeça com a arma, se ele fosse vital para a inexistência de um paradoxo (posteriormente viajando no tempo para o passado e definindo acontecimentos essenciais no começo da série, por exemplo), a arma “trataria” de falhar todas as vezes.

Bem, para concluir, devo dizer que as viagens no tempo estão muito longe da nossa realidade atualmente. Mas, pelo menos, espero que vocês tenham apreciado o quanto elas podem ser plausíveis na ficção com essa teoria, assim como eu fiquei (apesar de que eu ficaria bem mais animado se continuasse a pensar que tinha sido uma idéia original, heheh).

Agora se você não gostou da teoria nem do meu texto, te aconselho inventar uma máquina do tempo, voltar duas horas antes da postagem e me matar. Ou pelo menos tentar, hahahah.