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sábado, 29 de novembro de 2008

24 Horas e a política de intervenção americana

24 Horas - Elenco da sétima temporada

Essa semana, assisti ao telefilme de 24 Horas cujo trailer linkei aqui, ainda este mês. Gostei bastante do que vi, e tenho esperanças que a série ganhe novo fôlego depois de um ano e meio parada, principalmente por causa da greve dos roteiristas.
Uma coisa que me agradou muito, foi a intriga política que foi colocada como pano de fundo do filme, e que (eu espero) tenha continuadade ao longo da temporada. Não é certamente o que mais me atrai na série - o que mais me agrada talvez sejam coisas bem mais mundanas. Eu poderia citar o fator "aventura", a grandiosidade das crises e a urgência de tudo, a variedade de vilões e situações que Jack Bauer enfrenta, enfim, entre essas e tantas outras coisas que me agradam na série, mas essa não é a idéia desse post (pelo menos, não do post de hoje).
Queria falar como que, acredito eu, 24 Horas tenha apresentado de diversas formas um mesmo aspecto da política dos EUA, o que eu achei muito interessante.
Numa das primeiras temporadas (que foi ao ar no final de 2002, logo após os ataques de 11 de setembro e com a guerra no Afeganistão começando, se não me engano), discutiu-se na série a validade da invasão de um país, acusado de colaborar com o terrorismo. Um ataque terrorista teve sucesso relativo, e o presidente sentiu-se forçado a executar este ataque. Porém, ao longo da temporada, foi revelado que as provas do envolvimento deste país tinham sido produzidas por um grupo de empresários, que tinham como objetivo apenas encarecer o preço do petróleo.

Presidente David Palmer (2ª temporada)

Alguns anos depois, a série usou este mesmo tema, mas a trama era mais complexa, e os produtores resolveram ir "mais fundo": o próprio governo dos EUA conspirava para assegurar a posse dos campos de petróleo do centro da Ásia. O complicado esquema envolvia fornecer armas químicas para separatistas russos, e dispará-las no QG dos mesmos, para assim ter uma prova de que eles possuíam tais armas. Com essa prova, estaria justificada a presença militar americana na região. Qualquer semelhança com a realidade, com a busca por armas químicas no Iraque, não seria mera coincidência.

Presidente Charles Logan (5ª temporada)

E no ano seguinte, mais uma faceta possível da intervenção americana foi mostrada - dessa vez muito mais simples, e talvez por isso mesmo, assustadora. Diante de um ataque terrorista bem-sucedido (a explosão de uma bomba atômica de pequena proporções em Los Angeles), o então presidente dos EUA optaria pela retaliação contra o país dos terroristas - mesmo sem nenhum tipo de prova que o governo desse país ajudava esses terroristas. Ou seja, o ataque seria feito simplesmente por causa do belicismo do presidente, sem nenhum interesse em si. Novamente, qualquer semelhança com a realidade não seria mera coincidência.

Presidente Noah Daniels (6ª temporada)
É interessante como nessas duas temporadas, as duas possíveis faces foram apresentadas e bem exploradas. Uma conspiração por interesses no petróleo em uma, e a simples irracionalidade bélica do presidente em outra como grandes motivações.
Agora, com a nova temporada (sétima), surge uma terceira face da discussão. O país em questão não é mais do Oriente Médio, ou de qualquer região com petróleo, ou mesmo qualquer outro recurso importante. É um país africano fictício (Sangala), que está sendo vítima de um golpe de estado por um general sanguinário. A discussão girará em torno de ajudar ou não este país em apuros. A intervenção dos EUA, então, seria apenas para evitar um genocídio de milhares de pessoas inocentes. Seria uma intervenção desse tipo justificada? A nova presidente (Allison Taylor) alega que sim. É a velha questão da liberdade contra a vida novamente; alguma nação tem o direito de interferir nos assuntos de outro país, quando se trata de salvar milhares de vidas?

Presidente Allison Taylor (7ª temporada)

Sempre li que o criador de 24 Horas era republicano de carteirinha (literalmente). Não deixa de ser verdade, pelas ideologias que são mostradas na série. Mas eu gostei de como a política de intervenção americana foi mostrada de tantas maneiras, talvez até de todas possíveis, isso dá bastante margem para o espectador tirar suas próprias conclusões (não que o americano médio inflexível vá fazê-lo). E é engraçado como a nova temporada poderia estar antevendo acontecimentos futuros. E se o presidente Obama for um idealista tal qual a nova presidente dos EUA em 24 Horas? E se ele justificasse a invasão de um país cujos cidadãos sofrem nas mãos de um ditador?

Fica aí a nova discussão. Embora fique também uma ótima série de ação e drama, para o simples entretenimento =)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Sem pobreza e, ainda, com liberdade


Após a queda do Muro de Berlim, seguiu-se uma década em que alguns poderiam declarar o seguinte: "A humanidade finalmente está unida e em paz; podemos nos concentrar nos problemas que temos como civilização".
Claro que essa linha de pensamento não durou muito, dado os ataques de 11 de setembro - até hoje, as manchetes sobre o terrorismo não deixam os jornais. Mas o sentimento de unidade da humanidade, mesmo que intermitente, prevalesce. Talvez sintamos que somos capazes, agora, de resolver nossos problemas universais.
Dentre tantos problemas que temos, sempre prevalescerá o da pobreza no mundo. É, e talvez por muito tempo continue a ser, o primeiro da lista.
O que gera a pobreza? Os recursos produzidos pela humanidade hoje, graças aos avanços técnicos e científicos, são muito superiores àqueles produzidos há um século. Entretanto, essas riquezas permanecem muito desigualmente distribuídas, fazendo com que uma grande parcela da população fique abaixo da linha da pobreza.
Uma solução possível para o problema seria dividir tudo de maneira absolutamente igual, entre todos. Entretanto, surge uma nova questão: o velho conflito da vida contra a liberdade. No caso, a liberdade de enriquecer.
Vida e liberdade são dois direitos que entram diversas vezes em conflito. As questões do aborto e da "segurança vigiada" ilustram bem isso. Embora possa parecer muito materialista (e é a segunda vez que digo isso este mês), devemos nos perguntar se estamos dispostos a abrir mão de nossa liberdade de enriquecer, em prol do direto à vida de todos, quando decidimos por essa opção.
Pessoalmente, acredito que há uma maneira de agradar tanto a gregos quanto a troianos. Somos privilegiados de viver numa época em que, talvez, a educação seja nosso principal meio de produzir riqueza. Se dermos educação a cada ser humano de maneira justa, estaremos permitindo que cada um tenha suas oportunidades de produzir o suficiente para sobreviver e, se assim quiser, também enriquecer.
Temos que ser o mais produtivos possíveis. No caso específico do Brasil, temos que elevar novamente o sistema público de educação ao nível que tínhamos há 40 anos. Não podemos aceitar nada menor do que a eficiência máxima: por exemplo, terras não podem ficar paradas, sem produzir. As atividades que se mostram mais produtivas para a sociedade devem ser incentivadas. Sempre menciono uma comparação que cabe agora, do Brasil com o Japão: o primeiro possui 8% de seus formandos engenheiros, enquanto o segundo, 25%. E há MUITO trabalho a se fazer no campo. Trabalho que só traz benefícios para a sociedade como um todo.
Desonestidade e incompetência são os verdadeiros luxos aos quais não podemos nos submeter, se quisermos acabar com o problema da pobreza.
E então passaremos para o próximo item da lista: o meio ambiente.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O valor de uma vida humana


Imagine que duas pessoas estão correndo risco de vida, e que você só possa salvar uma delas. Quem você salvaria? Que características afetariam sua escolha?
É claro que, se esse experimento mental que estamos fazendo fosse real, a escolha seria muito mais afetada pela tensão do momento, e pelas nossas instáveis emoções. Esse não é o ponto do texto. Quero pensar em qual seria a melhor decisão racional num caso desses, a decisão não afetada pelo calor do momento.
O senso comum nos diz que, na maioria dos casos imagináveis (em termos de combinação de nossas duas "vítimas") é uma decisão extremamente cruel, que muitos optam por não fazer. De fato o é. Exceto para alguns casos, por exemplo, o que estão envolvidos uma criança e um adulto (a prioridade acaba se tornando a criança, segundo nossos valores éticos e morais), qualquer escolha de parâmetro de diferenciação pode ser considerado equivocado. Pensando num caso parecido: se um idoso e um adulto corressem risco de vida, quem você salvaria? Quem defendesse o salvamento do idoso poderia alegar que ele deve ser priorizado justamente pela sua idade avançada; quem defendesse o salvamento do adulto, poderia sugerir que o idoso estaria próximo da morte, e o adulto "teria mais vida pela frente".
Eu acredito que os valores que geralmente são considerados são muito subjetivos, e justamente por isso entram tanto em conflito. O que eu quero sugerir é: seria possível determinar valores para as vidas das pessoas, a fim de tornar essa análise "mais fácil"? Em suma, seria possível determinar o valor de uma vida humana?
Mas que parâmetros seriam utilizados nessa determinação?
Embora isso possa parece assustadoramente materialista, o que eu sugeriria (mas não exatamente defenderia) como variável para determinar o valor da vida de uma pessoa giraria em torno do quanto ela pode produzir. Não só no tempo presente, mas durante toda a sua vida futura.
Lembrando novamente do pensamento racional no caso, então estamos ignorando, de certa forma, nossos valores éticos e morais - só porque eles entram exageradamente em conflito num caso desses. As duas pessoas que estão "em perigo" em nosso exercício não tem nada a ver com nós. Qual seria a única influência dessas pessoas em nossas vidas? Poderíamos entender que estas pessoas apenas influenciam a sociedade em que vivemos, com aquilo que elas produzem. Elas são "apenas" duas adições diferentes ao PIB do nosso país, todo ano.
Se seguirmos essa linha de pensamento, poderíamos fazer algumas comparações, indo para diversos pontos.
O primeiro seria a comparação entre a criança e o adulto - a criança ganha pois tem muitos anos de vida mais pela frente (probabilisticamente falando) que o adulto. Ou seja, ela pode produzir mais para a sociedade em geral, em termos absolutos, que o adulto, que já produziu parte do que poderia produzir em sua vida. Entretanto, se pensarmos a curto prazo, o adulto produz mais que a criança, que ainda precisa completar sua formação (ou mesmo tê-la) até ser produtivo para a sociedade.
Outro caso, mais polêmico, seria comparar uma pessoa instruída, com outra não instruída. A pessoa com, vamos supor, um diploma acadêmico, seria teoricamente mais produtiva que aquela que só tivesse o Ensino Fundamental completo. Poderíamos usar o salário desses indivíduos como indicador do quanto ela pode produzir para a sociedade (embora isso possa não ser muito preciso). Não se trata de um pensamento elitista - se vivêssemos num mundo ideal, com as mesmas oportunidades para todos, aqueles que tivessem mais quantidade de conhecimento acumulado (ou seja, pudessem produzir mais para a sociedade como um todo), ainda assim teriam suas vidas "valendo mais".
Se compuséssemos todas essas considerações (o que é bem difícil), teríamos um modelo de quanto valeria a vida de cada pessoa. Baseando-se em quantos anos de vida ela tem (e, complementarmente, quanto tem pela frente, fazendo uma análise probabilística de sua vida futura), na quantidade de conhecimento acumulado, no seu estilo de vida, etc, poderíamos criar esse modelo, tudo girando em torno do que essa pessoa é capaz, no futuro, de gerar para a sociedade.
Essa análise pode parecer demasiado fria (e na verdade é), mas me pergunto se pensar assim não estaria "em vigor", sem nos darmos conta disso. Lembro-me de um caso que exemplifica bem essa linha de pensamento.
Durante a Primeira Guerra Mundial, surgiram os primeiros aviões de combate (e isso pouco tempo depois do avião ser inventado). Os pilotos não tinham nenhuma forma de ejetar dos aviões caso estivessem prestes a cair. Hoje em dia, para os pilotos de caças, esse sistema é bastante comum. O que mudou? Os generais e engenheiros militares tornarem-se mais conscientes? Na verdade, o que aconteceu é que houve uma valorização grande do piloto - enquanto qualquer um seria capaz de pilotar uma das máquinas voadoras do começo do século 20, um caça exige anos de estudo e treinamento. As autoridades não podem se dar ao luxo de perder um piloto de caça - ele é experiente demais. Há valor agregado à ele, pelos conhecimentos adquiridos. É possível traçar um paralelo com o caso do indivíduo instruído e o não instruído a partir dessa situação.
O que quero, com esse texto, não é defender a adoção desses parâmetros para definir o valor da vida das pessoas. É apenas pensar se não faria sentido esse raciocínio, de certa forma.

sábado, 28 de junho de 2008

Apocalipse Múltiplo - parte 1

Em 4 de janeiro de 2012, um atentado terrorista deu início a uma série de eventos que mudaria profundamente a história da humanidade.

À época, o presidente dos EUA era o democrata Barack Obama. Pouco mais de três anos de sua eleição, as tropas americanas já haviam sido retiradas do Iraque, como havia sido prometido durante a campanha. Apesar dessa ação aparentemente consciente, o anti-americanismo no mundo todo continuava. Por outro lado, era acompanhado da pressão sobre o governo por parte do povo da nação, cada vez mais insatisfeito com os preços progressivamente mais altos do petróleo.

Na manhã daquele inverno, mais precisamente nos céus próximos ao Central Park, a 2350 metros do ponto onde, em 11 de setembro de 2001, haviam sido atingidas as torres do World Trade Center, um artefato nuclear de pequenas proporções foi detonado. Mais uma vez, o atentado foi obra do terrorista Osama Bin Laden. E os radicais islâmicos novamente haviam sido engenhosos: foi usado um balão para colocar a bomba na altitude que causasse o maior número de vítimas possível, sendo que esse balão trazia uma mensagem de aparente repúdio à retirada das tropas do Iraque. O propósito da mensagem era evitar que o bolão fosse abatido antes da hora – o governo estava receoso em reprimir duramente esse tipo de manifestação, afinal, muitos americanos já haviam sido presos ou mortos por se revoltar contra a desocupação do Iraque, o que provocou grande queda na confiança no governo. O preço desse erro foi grande: 86 mil mortos na hora.

Três dias depois, em 7 de janeiro, o então senador Arnold Schwarzenegger fez um discurso que, embora não tivesse sido transmitido ao vivo pela TV, provavelmente se tornou o vídeo mais assistido da História. Nele, o político criticava a falta de atitude do então presidente Barack Obama, e, já pensando em sua presidência em 2013 (afinal, como era de se esperar, emendas na constituição permitiriam que o ex-ator austríaco se elegesse), anunciou que, se então fosse o líder do país, e se as nações do Oriente Médio não expusessem totalmente a organização terrorista Al Qaeda, os EUA atacariam o subcontinente com todas as forças.

O sentimento de vingança, aliado com as preocupações provindas da crise econômica, tomou conta dos americanos, e a eleição do antigo governador da Califórnia já estava garantida. De fato, na prática ele já havia se tornado o presidente com o discurso de 7 de janeiro.

Uma extensa campanha militar, cujo alvo principal era o Irã, se iniciou em meados de 2013. O que os americanos não contavam era com o repúdio, dessa vez muito mais intenso, por parte da ONU e mais especificamente da China, que acusavam os EUA diretamente de querer ocupar os campos de petróleo de todo o Oriente Médio, sejam eles de países aliados, que “hospedavam” as tropas, ou de inimigos.

Mas a maior surpresa veio da resistência dos países islâmicos. Dezenas de milhares de soldados americanos morreram em poucos meses. Os Estados Unidos passaram a suspeitar do suporte da China aos países resistentes.

Em 2016, quando a contagem de mortos passava das centenas de milhares de militares americanos e de milhões de civis asiáticos, o governo americano, impaciente, tomou a decisão crucial: usar armas nucleares. Alvos supostamente estratégicos foram aniquilados. A sede de sangue das massas americanas, pelo menos naquele momento, foi saciada.

Porém, a resposta veio na mesma moeda. As “nações terroristas” detonaram armas nucleares nas capitais ocupadas, principalmente naquelas que seriam pontos-chave para a extração do petróleo do Oriente Médio, como o Kwait. Os Estados Unidos imediatamente acusaram a China de fornecer essas armas aos resistentes.

A guerra nuclear devastou o subcontinente do Oriente-Médio. Ao todo, foram 29 armas atômicas detonadas, sendo 21 por parte dos americanos. Em meados de 2019, a radiação acumulada já chegava a afetar uma parte da Índia. Estima-se que 90 milhões de pessoas tenham morrido no conflito, quando os Estados Unidos retiraram as tropas definitivamente da região, deixando para trás apenas um deserto estéril.

A década de 2020 apresentou os primeiros sinais das mudanças climáticas mundiais, iniciadas pelo desenvolvimento industrial dos séculos 19 e 20 e catalisadas pela guerra nuclear no Oriente Médio. As áreas de desertificação, como o centro dos EUA, o nordeste brasileiro e o norte da África cresceram e se tornaram ainda mais quentes e secas, enquanto as temperaturas na Europa caíram surpreendentemente. Os recordes de frio e calor foram batidos sucessivamente.

Enquanto isso, a crise do petróleo se agravou. O Oriente Médio havia se tornado inexplorável, e o Brasil, que possuía a segunda maior reserva do mundo do precioso combustível, não tinha capacidade para extraí-lo de modo eficiente. Mas justamente por essas razões, as atenções globais se voltaram ao país neutro.

No final da década, mais precisamente a partir de 2028, uma empresa privada surpreenderia o mundo com um crescimento sem igual. A Corporação Axis, centrada em desenvolvimentos tecnológicos em geral (mas com uma ampla gama de outras atividades), conquistaria o globo em três diferentes “frentes”:

A primeira, foi o desenvolvimento de micro-reatores nucleares funcionais, que poderiam ser usados para prédios, residências, e até mesmo veículos de grande porte. Num mundo com petróleo cada vez mais raro e por conseqüencia caro, a nova tecnologia foi extremamente bem-recebida, gerando altos dividendos para a empresa.

A segunda foi a criação da Ultranet, uma interface intuitiva que representava a própria Terra com fidelidade, combinando ao mesmo tempo vários serviços (algo parecido foi feito no início do século com o sistema chamado Second Life), que rapidamente substituiu a internet na navegação pela rede. O slogan do serviço era “A realidade está obsoleta”. De fato, a Ultranet apresentava um nível de detalhamento maior, no mundo digital, do que o que podia ser captado pelos olhos humanos, no mundo real.

E a terceira e última, no início de 2032, foi a produção e venda dos primeiros robôs domésticos, tecnologia desenvolvida pela filial da empresa no Japão. Além da qualidade excepcional, a reputação construída pela empresa naqueles quatro anos foi altamente responsável pela venda dos mesmos, supostamente em absoluto seguros por um sistema que colocava, acima de tudo, as três leis da robótica, concebidas por Isaac Asimov.

[continua]

sábado, 21 de junho de 2008

Poder de polícia

Durante essa semana, fiquei em dúvida sobre que título usar para este post. Por coincidência, acabei vendo numa prova essa expressão, "Poder de Polícia", que se encaixava perfeitamente com o tema a ser discutido a seguir.

Poder de polícia: é o poder do Estado que permite restringir as liberdades individuais em nome do bem coletivo.

Bem, vamos por partes pra ficar mais organizado. Decidi discutir esse tema depois do post do Thiago da semana passada, intitulado "Consumo Consciente?". De certa forma é um comentário desse post, embora eu queira aqui discutir a solução do problema, e não o problema em si.

Primeiro de tudo, concordo com a maioria das afirmações (embora sem compartilhar da mesma revolta). As cidades são realmente espaços finitos, com concentrações cada vez maiores de pessoas e, por conseqüência, de carros. Com o crescimento da renda, as classes de renda mais baixa tendem a abandonar o transporte coletivo e passar a usar automóvel. Mas aqui, eu acho que essa é, infelizmente, uma tendência natural das pessoas. Dificilmente, na possibilidade de usar o carro, elas optarão pelo transporte coletivo - para que isso acontecesse, seria necessário que o transporte coletivo tivesse muita qualidade, e/ou o uso do carro fosse menos compensador.

Eu não acredito que as pessoas sejam conscientes quanto ao coletivo. Talvez elas sejam, mas só um pouco - não o suficiente para que façam sacrifícios em nome do resto da cidade.

Além disso, li uma frase do Maluf (não se preocupem, não sou malufista, e acredito que felizmente o ex-prefeito está inelegível pelas grandes massas, o que é algo tranqüilizante para mim, vide o que eu penso sobre as eleições), que dizia "Carro é liberdade". Tenho que concordar. Não só no sentido de ir pra qualquer lugar que se desejar a qualquer momento, como no sentido da liberdade de se adquirir o que se quiser (ou melhor, puder pagar).

Independente de tudo isso, o problema nos transportes continua. Partindo das hipóteses que não se pode confiar que a consciência das pessoas quanto ao coletivo mude (pelo menos a curto prazo), e que a liberdade das pessoas deve existir, como solucionar esse problema?

Eu proponho, justamente, o "poder de polícia". Se a situação chega a um ponto que prejudica o coletivo, que sejam tomadas medidas, mesmo que sejam drásticas, para reverter isso. Aumento nos impostos, no IPVA talvez? Se um carro é capaz de comportar 4 pessoas quando só comporta uma, não seria, na teoria, mais justo que o dono desse carro pagasse, vamos dizer, quatro vezes mais? Quem sabe, uma taxação inteligente, variável diante do nível de saturação das vias da cidade? Talvez a ampliação do rodízio (essa semana mesmo, fiquei sabendo que caminhões pequenos estariam nele incluídos).

Imediatamente, haveriam reduções no uso do carro na cidade. Embora também houvesse maior demanda pelo já superlotado transporte coletivo, surgiria com essa demanda, a revolta generalizada da população, ansiando por um melhor sistema de transportes.

O ponto desse texto é o seguinte: as pessoas não são conscientes, e se já é difícil mudar a cabeça de uma pessoa, que dirá de milhões. Mas elas ainda respondem a incentivos - mesmo que eles sejam negativos. Dou aqui como exemplo, um caso que ouvi numa aula: em Los Angeles, as pessoas só passaram a demandar o transporte coletivo com a alta do petróleo (que aqui não foi repassada aos motoristas). Um outro exemplo, numa outra esfera, seria o Bolsa-Família. Uma cesta básica (creio que seja isso) por ter um filho, não é um incentivo ao crescimento populacional, e conseqüentemente um problema adicional aos sistemas de saúde e educação, já saturados e de baixa qualidade? Por que, ao invés disso, não incentivar o controle de natalidade? Talvez o Bolsa-Vasectomia ou o Bolsa-Trompas-de-Falópio (ou Ligadura-de-Trompas, mas o primeiro me parece mais engraçado)? Ou melhor, mesmo um benefício cumulativo pelo tempo em que uma família permanece sem filhos. Não seria essa uma boa forma de incentivar as pessoas, mantendo a liberdade delas?

Em resumo, por mais controlador que isso seja, eu proponho que a sociedade seja controlada, ou no mínimo melhor incentivada (positivamente ou negativamente), em prol do bem coletivo. Afinal, é por vivermos em sociedade que temos grande parte dos benefícios aos quais nos acostumamos. Deve haver alguém que zele por ela - se não forem as próprias pessoas, que seja quem está acima dela.

Agora, o problema é quem está acima dela.

sábado, 7 de junho de 2008

Fazendo uma ponte com um comentário n'outro blog

Na última terça-feira, eu bati meu recorde. Fiquei fazendo trabalho até quase 10:00 na faculdade (sendo que eu e mais dois colegas começamos o dito cujo às 16:40). Um dos meus colegas me ofereceu carona, pois mora próximo da minha casa. Já estava bem tarde e eu, claro, aceitei, mas não tinha desconsiderado antes a hipótese de voltar a pé.

Foi então que esse meu amigo me disse que a partir das 10, 10:30, os ônibus não circulam na USP – não sei se a informação procede; se estou falando besteira, me corrijam. Mas se for verdade, então eu estaria ferrado se estivesse sozinho à essa hora lá.

No caminho, um dos assuntos que discutimos foi sobre a ponte estaiada sobre o rio Pinheiros, a qual ele sempre pegava pra voltar pra casa e na ocasião não foi diferente. Vocês já viram a ponte à noite? Ela é iluminada e fica mudando de cor. Ouvi muita gente dizendo que é ridículo, e eu confesso que também achei estranho e preferiria uma iluminação normal.

Mas enfim, o que eu mais quis discutir com ele foi sobre como essa ponte afetou o trajeto dele para sua casa, justamente porque alguns dias antes tinha debatido o seguinte assunto aqui pelos blogs e no MSN – a ponte construída era realmente necessária? E então, fiquei surpreso com as reclamações dele de que o trânsito na Roberto Marinho, que ele utilizava, tinha aumentado muito, principalmente por causa dessa ponte, que havia atraído usuários. Mas também ele me revelou que o trânsito em outros trajetos tinha melhorado.

Vou explicar aqui um pouco do que estudei de engenharia de tráfego, que implica no assunto.

Um dos modelos que os engenheiros usam para estudar os fluxos de viagens (no caso, usando o sistema viário) se baseia, essencialmente, nas regiões que mais produzem e atraem as viagens, que ainda podem ser de dois tipos: viagens com motivo de trabalho e com outros motivos (a passeio, pais buscando seus filhos nas escolas, etc).

Outros pontos que o modelo compreende são o número de pessoas por família, o número de carros de cada família, e quantas viagens as famílias costumam produzir, de acordo com o número de carros (uma família de 6 pessoas com 2 carros produzirá muito mais viagens em horário de pico – e a rede viária é dimensionada baseando-se nos horários de pico, que constitui o pior caso possível – que uma família com apenas uma pessoa e sem carro).
Mas o mais interessante: de acordo com o tamanho da família, é possível, a partir de uma fórmula, calcular a probabilidade que essa família tenha 0, 1, 2 ou mais carros. Nessa fórmula, é usada a taxa de crescimento anual da renda. Quanto maior a renda de uma família, maior será a probabilidade dessa família ter mais carros e, assim, efetuar mais viagens.

O ponto em que quero chegar: eu acredito que a ponte estaiada construída sobre o rio Pinheiros possa ter sido algo necessário para a cidade no momento. Meu amigo reclamou que o trânsito em sua rota aumentou, mas ao mesmo tempo, rotas alternativas se tornaram menos congestionadas. De fato, um novo caminho só pode melhorar o fluxo de veículos na cidade – a questão aqui é se esse investimento foi uma idéia inteligente, se a verba não poderia ser melhor aplicada. E para essa questão, eu sinceramente não tenho certeza da resposta, por isso o “possa” na primeira frase deste parágrafo.

Citei o crescimento na renda, que de fato é usado como variável crucial no modelo de estudo dos fluxos de viagens, pois ele exemplifica como outro crescimento, o da frota de veículos, pode ser difícil de se evitar. Com o aumento da renda, é razoável que se espere esse crescimento. Só mesmo um transporte público de muita qualidade – e isso talvez torne-se especialmente difícil de se fazer (ou ao menos demorado) num país como o Brasil e numa cidade como São Paulo – poderia reverter esse quadro.

Não estou dizendo que o aumento na malha viária seja a solução para os problemas de transporte em geral – de fato, o transporte público, o metrô mais especificamente, é a solução mais adequada a longo prazo. Mas não se pode ignorar o aumento do fluxo de automóveis; chega um ponto em que certas obras se tornam necessárias. Novamente não estou dizendo necessariamente que a ponte foi a solução mais inteligente em termos de custo-benefício (sendo o benefício, aqui, a melhora no fluxo de viagens), estou dizendo apenas que ela pode ter sido.

O que eu acredito, em suma, é que as decisões que são tomadas, como por exemplo, a construção dessa ponte, são feitas após minuciosos estudos por parte dos engenheiros (usando modelos como o exemplificado), principalmente por haver tanto dinheiro em jogo. O que pode acontecer, é que essas decisões estejam equivocadas. E aí há exemplos como do metrô da linha 5-Lilás, muito pouco usado (na verdade não se se continua assim).

A respeito da obra como um “cartão-postal” da cidade. Muitos acharam isso um desperdício de dinheiro, mas eu acho válido termos obras não só funcionais, mas também bonitas na cidade, que inclusive carece disso. E eu não tenho certeza, mas talvez a diferença de um projeto de arquitetura mais elaborada para um projeto simples talvez não fosse tão grande, na questão do preço.

sábado, 31 de maio de 2008

Eu voto pelo "talvez voto"

Mais um ano de eleições, desta vez municipais, e mais uma vez eu não tenho a menor idéia de em quem vou votar. Talvez esse ano esteja tudo muito pior, porque nem o pouco interesse que eu tinha nas épocas de eleições passadas (principalmente na primeira em que de fato eu tive que votar) eu pareço ter agora.

Eu sinceramente não entendo nada de política. Me parece uma coisa em que tantos interesses e tantos fatores estão envolvidos, que não consigo tirar nenhuma conclusão exata. Por exemplo, afinal, o Brasil vive um bom momento econômico? Esse bom momento é resultado da gestão atual? Ou a suposta boa situação atual (ao que me parece) foi resultado das administrações passadas? Ou mesmo do crescimento econômico de todo o mundo, acompanhado da crise nos EUA? A pouca instrução do presidente Lula é fator crucial para julgá-lo como bom ou mau presidente? As denúncias que não param de aparecer – como analisa-las? Alguns dizem que o governo FHC teve tantos casos de corrupção quanto a administração petista, só que eles foram encobertos, por exemplo.

Enfim, esses e alguns outros pontos mostram como a política parece algo complicado, pelo menos pra mim. E então, quando chega a época de eleições, tudo fica mais confuso. Aparecem denúncias de corrupção “de última hora”. Os candidatos fazem suas propagandas políticas totalmente maquiados pelos marqueteiros, transmitindo a melhor imagem que a edição possa produzir. Na maior parte do tempo, não há uma comparação objetiva de propostas – apenas a costumeira troca de acusações e a exaltação do que já foi feito.

E então vem o ponto onde eu quero chegar: o voto. Mesmo eu não sabendo em quem votar, mesmo eu não “correndo atrás” (por, admito, preguiça e desinteresse) de um candidato para analisar suas propostas e comparar com as dos outros em meios confiáveis (embora eu me pergunte se eles existem de fato), eu sou obrigado a votar em alguém. Não só eu, mas milhões de brasileiros com mais de 18 anos.

Uma solução possível para essa minha indecisão (ou talvez seria melhor chamar de ignorância política?) seria votar em branco ou nulo. Mas aí vem outra linha de pensamento. Votando em branco ou nulo, é como se eu concordasse com a vitória de que está à frente nas pesquisas. E, considerando-se que o brasileiro, talvez por falta de instrução, talvez por falta de discernimento, talvez por uma simples naturalidade, possa acabar votando na melhor campanha em vez de votar naquele que seria o melhor líder ou no partido que tem as melhores propostas, o meu voto em branco ou nulo poderia ser interpretado como uma passividade ante essa situação. Poderia ser entendido como estar votando nesse candidato, que pode injustamente estar na frente.

O que eu tenho feito a respeito disso nas últimas eleições é certamente curioso. Já tentei decidir definitivamente, independentemente de números de pesquisas, entre um candidato e outro em situações passadas (claro, nunca de maneira muito interessada), às vezes alternando até entre três ou quatro, mas no final das contas, com a minha indecisão, acabava votando no segundo colocado. O motivo disso seria evitar a possibilidade de vitória em primeiro turno do candidato à frente nas pesquisas, também elevando seu número de votos, e assim prolongando a “discussão” (não só minha como do país inteiro).

Certamente essa não é a saída correta. Eu deveria pesquisar mais sobre cada candidato, comparar melhor as propostas e definir meu voto. Mas mesmo que eu vencesse a preguiça, eu seria capaz de discernir de fato qual o melhor candidato, com base nas informações que me fossem disponibilizadas? Além disso, mesmo que eu fizesse isso, quem garante que a maior parte dos brasileiros também faria?

Eu penso no voto facultativo como uma solução para esse problema. Se o voto não fosse obrigatório, teoricamente quem votaria seriam somente as pessoas que definiram seu voto com consciência, após analisar com bom senso os fatos (também nesse ponto entra um pouco de conscientização da população a respeito de não se deixar levar apenas por propagandas). Ou será que estou enganado, e as pessoas que se deixam levar pela simpatia de um candidato, por exemplo, continuariam votando do mesmo jeito, pensando estar fazendo o certo?

Agora, se caso o voto realmente não fosse obrigatório, então eu não votaria, assumindo minha ignorância política, ou mesmo meu desinteresse. Mas ao mesmo tempo deveria esperar que só votassem aqueles que realmente ponderaram antes de fazer a melhor escolha para o país.

Caberia um plebiscito para decidir se o voto deve ser obrigatório?

PS.: Efeito Drouste: o plebiscito citado deveria ser por voto obrigatório ou não? XD