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sexta-feira, 24 de abril de 2009

A última era da humanidade

Não há mais mistérios. Não há mais injustiças. Não há mais medos. O que poderia sobrar em tal cenário?

Esta história se passa numa época que sofre uma curiosa indefinição - quando se olha sob um prisma atemporal. É o futuro mais futuro que todos os outros, pois a todos os outros pode chamar de passado. Mas ao mesmo tempo, é o presente mais presente que todos os outros - já que não existe melhor definição para uma era tão duradoura e imutável.

A última era da humanidade inicia-se com a nanotecnologia - que nada mais é que a matéria moldada a partir de seus blocos básicos. Em apenas algumas décadas, a civilização viu a fome, as guerras, as doenças, a necessidade do trabalho e até mesmo a mortalidade desaparecerem. Que restava, então?

Os mistérios e as artes, disseram alguns.

Mas logo caíram por terra também os mistérios. Viagens no tempo, a velocidade da luz, a mente humana - todos eles. Levou-se mais algumas décadas, mas a todos foi dada pelo menos uma das seguintes certezas:
1) a certeza sobre uma explicação;
2) a certeza de que não havia uma explicação;
3) a certeza de que uma explicação não poderia ser encontrada, à época ou num futuro próximo.

Daí sobraram as artes. As artes miraculosas que todos então podiam construir graças à nanotecnologia - seja uma pirâmide hexagonal, seja um robô na forma de um dragão, seja um polvo com leões em seus tentáculos. As artes não exatamente morreram, mas justamente por todas as possibilidades serem espremidas, não havia mais atrativo.

Que restava, então?
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Éon meditou por um segundo. Precisava de uma interpretação elaborada de sua época, partida de um ser humano do século 20 depois de Cristo.

Mais um segundo passado e começou a gesticular no ar, envolto por sua roupa preta colada ao corpo, e que brilhava como ébano.

As projeções holográficas ao seu redor voltaram a se mexer. Em breve, seu filme estaria pronto.

sábado, 25 de outubro de 2008

Os fins da evolução

Quando o blog tinha apenas alguns posts, lembro-me de citar que haviam quatro grandes questões (ou seriam mistérios) que o ser humano talvez nunca "solucione". A saber: a existência, a vida, a inteligência e o amor.
Refletindo um pouco sobre a questão da inteligência (a consciência, para ser mais exato), me veio a seguinte indagação: será que esta não faz parte do segundo mistério, a vida? Porque a inteligência nada mais é que um mecanismo que a evolução encontrou para perpetuar a vida. Apenas um dos acasos, dentre tantos outros, que surgiram para que as formas de vida fossem cada vez mais evoluídas e adaptadas ao ambiente, mesmo que em constante mudança. Com a diferença que a inteligência é bem mais intrigante que mesmo um par de pulmões para um peixe que dá seus primeiros passos em terra firme - talvez isso valide a questão, novamente. Mas de todo mundo, não deixa a inteligência de fazer parte do mistério da vida.
Porém, o que eu quero discutir aqui, hoje, não é especificamente isso. É a validade daquilo que chamamos de evolução. Justamente a inteligência nos dá, supostamente, a posição no topo da cadeia evolutiva.
Porém, vamos imaginar outra situação. Na história que eu estou tentando escrever nos últimos tempos, Trodonte, tento imaginar uma sociedade em que uma espécie de dinossauro evoluiu para uma criatura consciente. Na época desses dinossauros, havia predadores terríveis, muito maiores que quaisquer outros do nosso tempo. Não que necessariamente o tamanho fosse algo que importasse, mas será que poderia haver um predador tão mortífero e eficaz, que nem mesmo uma espécie inteligente teria condições de competir com ele (e se desenvolver tecnologicamente), sendo até mesmo dizimada pelos indivíduos de sua espécie? Não seria essa, então, a espécie dominante, num dado momento? Ou será que a inteligência sempre predominaria, mesmo que sobre a força de um predador, por mais colossal que fosse?
Mais um caso que podemos analisar: dos insetos vivendo em sociedade. Esse tipo de comportamento, a convivência em sociedade, não muda há centenas de milhões de anos. Não seria esse mais um topo da cadeia evolutiva? É curiosa a capacidade de comunicação das formigas, por exemplo, em que as informações são transmitidas pelos membros de uma colônia, um a um, de maneira muito rápida e eficiente. É extremamente interessante comparar esse funcionamento da colônia com o de um ser humano. Não somos grandes colônias de células, afinal?
E por último, conforme eu discuti num dos primeiros posts do blog, a respeito dos robôs que podiam imitar o mecanismo da vida, se replicando e até mesmo evoluindo. Imaginemos que seja possível criar os tais nano-robôs, e que estes se alimentassem unicamente de energia solar - a fonte primordial de praticamente todas as formas de energia da crosta terrestre. Dado que nós também, mesmo que indiretamente, nos utilizemos dessa energia (afinal, comemos plantas e animais que comem plantas, e nem é preciso dizer que elas "acumulam energia" por meio da fotossíntese), não seria esse mais um passo nos caminhos da evolução? Seriam então esses robôs não só formas de vida, mas as formas perfeitas de vida? E não seríamos nós, então, apenas marionetes dos processos de evolução?

sábado, 30 de agosto de 2008

Existência

Bom, hoje não tenho nada muito preparado para falar sobre, então deixo pra vocês um vídeo que vi ontem, e achei muito interessante. É sobre uma maneira de imaginar as dez dimensões.

http://www.tenthdimension.com/medialinks.php

A primeira vez que ouvi falar que o universo não teria apenas quatro dimensões (as três espaciais e o tempo), mas sim dez, fiquei extremamente confuso e pensei "Nossa, nunca vou entender isso, deve ser algo muito complicado e teórico". E ontem, vi esse vídeo, que apesar de não conter a explicação "oficial" para a teoria das dez dimensões, tem bastante lógica (pelo menos nas partes que eu entendi), e é muito interessante.

Na verdade, depois de escrever o segundo post do blog, passei a pensar se não seriam as possibilidades a quinta dimensão, seguinte ao tempo. Várias linhas do tempo diferentes, cada uma contendo os desdobramentos de uma escolha ou possibilidade em toda a história do universo, comporiam essa dimensão. Mas no vídeo, pelo que eu entendi, o autor da idéia considera duas dimensões a partir desse conceito: a quinta seria composta de todas as linhas do tempo possíveis a partir do instante em que estamos, enquanto uma sexta dimensão considera todas as linhas do tempo possíveis a partir de qualquer momento da história do universo, o que não deixa de fazer sentido.

Continuando com o conceito que ele usa desde o começo, de imaginar todas as dimensões anteriores como apenas um ponto da dimensão seguinte, vem o conceito da sétima dimensão. "Nosso" ponto na sétima dimensão seria composto por todas as linhas de tempo possíveis desde nosso Big Bang, até o fim do universo. Um outro ponto nessa dimensão seria todas as possibilidades num universo que começasse de uma maneira diferente - com as regras da física diferentes, pelo que eu entendi. Por exemplo, um universo com fundo amarelo-gema por algum motivo. Daí, traçando uma linha entre os dois pontos, teríamos a sétima dimensão.

Nesse momento que não entendi ao certo como o autor concebe as oitava e nona dimensão. Acho que ele quer dizer que a linha que traçamos na sétima dimensão representa a diferença gradual entre os dois pontos que temos. As duas dimensões seguintes seriam talvez para outros parâmetros de diferenciação de condições iniciais? Não sei ao certo.

No final do vídeo o autor chega à décima dimensão novamente com um ponto, contendo todos os universos que possam ser iniciados, cada um contendo todas as linhas possíveis de se desdobrarem, cada linha com as dimensões espaciais e a temporal, da qual somos mais íntimos. E daí, não há mais para onde ir.

Se o universo, sua grandeza, beleza e mais tantos outros adjetivos já não fosse suficiente, temos aí algo ainda mais fascinante. Não haveria apenas as dimensões espaciais, não haveria apenas o tempo. Haveria uma infinitude de linhas do tempo possíveis a partir do momento em que estamos, e a partir de todos os momentos que já se passaram, respectivamente nas quinta e sexta dimensões. E isso só para nosso universo, ainda haveria aqueles que conseguimos ou não imaginar, nas sétima, oitava e nona dimensão, baseando-se em condições diferentes para seus inícios.

Seria então a existência o topo de tudo, no final das contas?

sábado, 23 de agosto de 2008

Engenheirices II - O MASP e a pilha de livros na horizontal



Pouca gente sabe, mas o MASP, na avenida paulista, possui um dos maiores vãos de estrutura sustentada por concreto protendido do mundo: 74 metros, de pilar a pilar.

Mas antes de falar do concreto protendido que sustenta o vão do MASP, temos que falar do concreto armado. Qual o princípio do concreto armado?

Primeiro vejamos o que aconteceria se uma viga, sustentada por dois pilares, fosse feita somente de concreto.

Na imagem superior, temos uma concepção simplificada da viga e dos dois pilares, sem nenhuma deformação. Na figura seguinte, podemos ver como fica a estrutura (com dimensões exageradas e totalmente fora de escala), quando se considera o peso dela mesma (e eventualmente o peso de sua destinação). Essa deformação é intuitiva – quanto mais próximo do centro, maior ela será.

Se pararmos para pensar, a parte de baixo da viga agora está mais alongada do que originalmente, enquanto a parte de cima está menos alongada. A parte de baixo foi “esticada”, enquanto a parte de cima foi “apertada” – isso nada mais é do que tração e compressão, respectivamente! Ou seja, os esforços sobre a viga produziram esse efeito interessante de curvatura.

Para a parte superior dessa viga não há problema, mas a parte inferior vai rachar transversalmente – o concreto não responde bem à tração. O que é feito para conter isso, então? Simples: colocar uma armação – a chamada armadura – de aço na parte inferior da viga antes de concretar a mesma. Tem-se então a viga de concreto armado.

O aço, que resiste à tração, dará conta das forças no que se chama de fibras inferiores da viga.

Agora, a arquitetura do MASP foi concebida com um vão muito grande, um recorde mundial, como já foi dito acima. Os grossos pilares da estrutura sustentam o seu peso, uma força na vertical, facilmente, mas não é aí que está o problema. O problema está no centro da laje, que romperia se fosse apenas de concreto. Mesmo se fosse de concreto armado, o aço não agüentaria as forças de tração que seriam geradas nas fibras inferiores – ou então até agüentaria, mas a quantidade que seria usada numa estrutura de concreto armado para sustentar o MASP seria economicamente inviável, já que as barras são muito caras.

A solução mais lógica e moderna é o uso do concreto protendido. O princípio do concreto protendido é simples: ao invés de se colocar barras de aço, colocam-se cabos de aço previamente tracionados (“esticados”). A disposição dos cabos pode ser vista dentro da viga abaixo:

Os cabos tracionados “apertam” o concreto a partir das extremidades da viga (esse é apenas um dos métodos de protensão, os outros eu não vou explicar aqui por falta de tempo), deixando ele previamente comprimido – sem problemas, o concreto resiste bem à compressão. O peso próprio da viga, e a ação das cargas acidentais (as cargas que ocorrem de maneira variada ao longo do tempo: as pessoas que caminham sobre a estrutura, as obras de arte, etc) continuam executando suas forças de tração na parte inferior da viga da mesma maneira que explicado acima, para a viga de concreto armado; mas agora, temos as forças de compressão dos cabos de aço para equilibrá-las. Com tração e compressão se opondo nas fibras inferiores, chegamos à resultante das forças: zero.

Uma analogia simples para esse método genial, é o modo como é possível segurar uma grande pilha de livros na horizontal: se “apertarmos” eles com uma força suficiente com as mãos, estaremos fazendo o mesmo que os cabos de protensão fixados nas extremidades das vigas, e os livros não cairão.

sábado, 16 de agosto de 2008

Engenheirices I - A ponte pênsil e o trem-bala

Bom, esse é o primeiro post de uma série não-seqüencial de alguns sobre coisas, fatos, histórias e relatos que eu eventualmente achei incrivelmente interessantes da engenharia civil, e que eu gostaria de compartilhar aqui com vocês.

Começo então com uma pergunta: por que um trem-bala não pode atravessar uma ponte pênsil em alta velocidade?

Primeiro, vou explicar como funciona uma ponte pênsil. Não é nada muito complicado e eu me surpreendi com a genialidade e simplicidade no funcionamento dessa estrutura.

Antes das primeiras pontes pênseis, a construção de uma estrutura que atravessasse um rio era extremamente complicada e dispendiosa. Devia-se erguer diversos pilares para sustentar a ponte, e além disso, às vezes era preciso efetuar as fundações em solo mole, em alguns casos instável. O vão (distância entre lances de pilares consecutivos) possível de ser atingido era consideravelmente pequeno.

Isso ocorria, principalmente, porque nas pontes antigas se contava com a resistência à compressão (o ato de exercer forças contrárias “esmagando” o material) dos materiais (concreto, pedras, tijolos). Todos eles, principalmente o concreto, são bastante resistentes à compressão, mas chegou-se num ponto que mesmo essa alta resistência não era suficiente para as distâncias que as pontes e a profundidade dos pilares das mesmas tinham que ultrapassar (fazer um grande número de pilares, e todos eles muito grossos para resistir ao próprio peso e ao da ponte em si, se tornava extremamente caro).

Já o aço apresentava-se como uma opção alternativa ao concreto. Comparando em termos de tração (o ato de exercer forças contrárias “rompendo” o material), o aço é incrivelmente superior ao concreto. Ou seja, um cabo, ou mesmo uma barra de aço, sustentaria uma carga pendurada nela, enquanto uma coluna de concreto não agüentaria a mesma carga. Na realidade, o aço também é mais resistente à compressão que o concreto – só que nesse caso, você precisa de uma área considerável de aço, o que acaba tornando inviável o uso do material devido a custos, o concreto se torna uma opção bem mais barata.

Em resumo: o aço é conveniente quando é só puxado, enquanto o concreto é conveniente quando é só comprimido.

A ponte pênsil é a expressão dessa eficiência, de cada material trabalhando do melhor jeito possível.


Analisando esse desenho, é possível ver como a ponte funciona. Cada um desses retângulos representa uma seção do tabuleiro, o “corpo” da ponte. Essas seções são sempre comprimidas pelas suas “vizinhas” na direção horizontal. Já com os cabos (que só transmitem esforços nas suas direções), vejamos o que acontece:

As forças em vermelho são apenas representativas, sendo decompostas nas direções x e y (vetores em preto).

O cabo mais à direita, na horizontal, está sendo tracionado. O cabo na vertical, que sustenta (também sendo apenas tracionado) uma seção da ponte, transfere sua carga: parte dela vai para o cabo na horizontal, e parte vai para o cabo inclinado (setas para baixo). A força que o cabo inclinado faz (em vermelho, e na sua própria direção!) resulta numa reação no cabo na horizontal, que equilibra tanto a parte da carga que veio da ponte quanto a força horizontal.

No lance seguinte de cabos, inclinado, acontece a mesma coisa. As forças são equilibradas pelo próximo lance, que está ligeiramente mais inclinado. E assim por diante.

Muitos lances depois, temos o resultado final: os cabos em arco da ponte pênsil. As forças (na vertical – as forças na horizontal são equilibradas pelos cabos do outro lado!) são transferidas para os grandes pilares da estrutura.

Agora, por que o trem-bala não pode atravessar a ponte pênsil em alta velocidade. Dado o caráter da ponte, do concreto funcionar à compressão e os cabos de aço funcionarem apenas à tração, as seções do tabuleiro não são perfeitamente rígidas, e sim vinculadas por articulações (a natureza dessas articulações é algo muito curioso também, mas que infelizmente não vai dar tempo de explicar agora). Ou seja, todo o tabuleiro é, à grosso modo, como se fosse uma “ponte de plaquinhas” ligadas como dobradiças.

Se o trem-bala passasse a toda velocidade, o próprio peso do mesmo faria as seções “afundarem”, mesmo que só um pouco. Mas seria o suficiente para o trem se arremessar na inclinação gerada por ele mesmo, se estivesse numa velocidade muito alta, característica do veículo.

sábado, 9 de agosto de 2008

Acelerador do fim do mundo

A ativação do LHC, o Large Hadron Collider (o maior acelerador de partículas do mundo), foi adiada, então a discussão continua: vale a pena liga-lo? Correr um risco, mesmo que infinitesimal, de toda a Terra ser destruída?


No campo da ficção, sempre achei um assunto interessante as eventuais ameaças que poderiam afetar toda a humanidade, ou até mesmo a Terra. Os exemplos mais comuns: o “comuníssimo” holocausto nuclear (talvez a ameaça mais real pela qual passamos nesse sentido), a queda de um meteoro que tornasse impossível a vida no planeta, e a criação/evolução de um vírus/bactéria/parasita mortal que provocasse uma epidemia de proporções globais. Todas essas possibilidades me deram a idéia, inclusive, de escrever uma história na seguinte linha: e se todas essas ameaças se apresentassem paralelamente à humanidade?

Foi então que eu comecei a escrever o texto intitulado “Apocalipse Múltiplo”, com uma história se passando em 2060, com a Terra sendo devastada pela guerra nuclear, por epidemias, mudanças climáticas drásticas, entre outros pesadelos da raça humana.

Como esse texto seria mais uma homenagem a essas formas mais comuns (e talvez mais exploráveis) da destruição da humanidade, e também aos filmes que se baseiam em cada uma delas, muita coisa interessante acaba ficando de fora.

Um texto muito curioso que relata dezenas de formas do mundo acabar (das mais comuns até outras muito irreais, como por exemplo: todas as moléculas da Terra deixarem de existir ao mesmo tempo!) com detalhes, pode ser visto no seguinte link (está em inglês):

http://qntm.org/?destroy

Mas enfim, voltando ao assunto do LHC: o grande problema do acelerador de partículas é que ele pode criar um buraco-negro, que eventualmente engoliria toda a Terra. Também há a possibilidade da criação de matéria estranha, que, em contato com outros tipos de matéria, as transformaria também em matéria estranha, gerando uma reação em cadeia com proporções catastróficas.

Qual seria a probabilidade desses acontecimentos catastróficos se concretizarem? O blog que li que me impeliu a escrever sobre o assunto relatava uma chance de 0,01% do acelerador de partículas criar o tal buraco-negro. Porém, o autor do blog provavelmente se enganou, não considerando que esse micro-buraco-negro criado se evaporaria rapidamente.

Apesar de não ser um profundo conhecedor do assunto, sei que essa chance de 0,01% seria muito grande para que até se cogitasse a ligação do acelerador. Provavelmente, as chances reais de “destruição da Terra” (embora sejam difíceis as previsões nessa área), seriam realmente infinitesimais.

Mas a questão continua sendo a mesma, afinal, a diferença entre uma chance infinitesimal e a certeza de que não ocorrerá nada é grande.

Talvez seja, no final das contas, apenas uma questão de números. Pelo que eu conheço da engenharia, tudo que é construído leva em conta a probabilidade de algo dar errado – sempre há a chance do desastre.

Por exemplo, na área da construção civil (que aliás é a minha área). Quando um prédio é estruturado, o concreto armado que o sustenta é feito com uma resistência tal que esta suporte todas as cargas solicitantes do prédio (que daí variam com relação ao seu uso – uma biblioteca, por exemplo, apresenta uma solicitação muito grande). É claro que, para os cálculos, as cargas de solicitação são majoradas (multiplicadas por um coeficiente), enquanto as resistências dos materiais solicitados são minoradas (divididas por um coeficiente). Afinal, sempre há a possibilidade de haver uma carga maior que a média prevista, assim como há a possibilidade do concreto produzido para sustentar um prédio apresentar uma resistência menor que a média calculada.

Só que, mesmo depois de tudo isso, ainda existe a probabilidade, de se ter produzido um concreto tão ruim para a sustentação, e as cargas serem altas muito além do previsto, ocorrendo a ruína da construção. Claro que essa probabilidade é muito pequena (provavelmente bem menor que a suposta de 0,01% do colisor de hádrons destruir a Terra), e lembrando que aqui estamos falando de apenas algumas vidas perdidas no desmoronamento de um edifício, em comparação com a destruição de toda a humanidade.

O que governa o estabelecimento dos coeficientes usados na construção civil e, similarmente, em outras áreas, é a diminuição das probabilidades de ocorrer um acidente.

Mas o que entra nessas determinações também, é a viabilidade econômica dos empreendimentos. Passando para outro exemplo: à época do lançamento da Apollo 11, as chances de uma falha que provocasse a morte dos astronautas eram de 0,5%. Apresentada ao presidente americano, essa chance foi rejeitada, e ele então determinou que só aprovaria o lançamento se as chances de falha fossem de 0,25%. Foram mais seis meses de pesquisas, aprimoramento dos materiais usados na nave, etc (o que gastou bilhões de dólares), até que essa probabilidade fosse atingida.

Aonde quero chegar: a ativação do acelerador de partículas com certeza é diferente de um simples edifício ou mesmo da missão Apollo 11, pois os riscos envolvem o planeta inteiro e não somente um grupo de pessoas. Só que, similarmente, trabalha-se com chances nos dois casos. Mas e se admitirmos o experimento diante de chances muito, muito menores, da ordem de uma em bilhões, ou até trilhões? Uma chance condizente com o risco da extinção da humanidade (o que é realmente difícil de colocar em números). O risco se tornaria válido em prol de um grande progresso? Eu confesso que não tenho uma resposta absoluta para essa questão. Que continue em aberto a discussão daqueles que provavelmente não decidirão nada - todos nós.

PS.: Os blogs da Bibi e do Hugo e talvez do DJ essa semana também falaram do colisor (afinal todos estavam sem assunto! hahahah), então não deixem de visitar.

sábado, 28 de junho de 2008

Apocalipse Múltiplo - parte 1

Em 4 de janeiro de 2012, um atentado terrorista deu início a uma série de eventos que mudaria profundamente a história da humanidade.

À época, o presidente dos EUA era o democrata Barack Obama. Pouco mais de três anos de sua eleição, as tropas americanas já haviam sido retiradas do Iraque, como havia sido prometido durante a campanha. Apesar dessa ação aparentemente consciente, o anti-americanismo no mundo todo continuava. Por outro lado, era acompanhado da pressão sobre o governo por parte do povo da nação, cada vez mais insatisfeito com os preços progressivamente mais altos do petróleo.

Na manhã daquele inverno, mais precisamente nos céus próximos ao Central Park, a 2350 metros do ponto onde, em 11 de setembro de 2001, haviam sido atingidas as torres do World Trade Center, um artefato nuclear de pequenas proporções foi detonado. Mais uma vez, o atentado foi obra do terrorista Osama Bin Laden. E os radicais islâmicos novamente haviam sido engenhosos: foi usado um balão para colocar a bomba na altitude que causasse o maior número de vítimas possível, sendo que esse balão trazia uma mensagem de aparente repúdio à retirada das tropas do Iraque. O propósito da mensagem era evitar que o bolão fosse abatido antes da hora – o governo estava receoso em reprimir duramente esse tipo de manifestação, afinal, muitos americanos já haviam sido presos ou mortos por se revoltar contra a desocupação do Iraque, o que provocou grande queda na confiança no governo. O preço desse erro foi grande: 86 mil mortos na hora.

Três dias depois, em 7 de janeiro, o então senador Arnold Schwarzenegger fez um discurso que, embora não tivesse sido transmitido ao vivo pela TV, provavelmente se tornou o vídeo mais assistido da História. Nele, o político criticava a falta de atitude do então presidente Barack Obama, e, já pensando em sua presidência em 2013 (afinal, como era de se esperar, emendas na constituição permitiriam que o ex-ator austríaco se elegesse), anunciou que, se então fosse o líder do país, e se as nações do Oriente Médio não expusessem totalmente a organização terrorista Al Qaeda, os EUA atacariam o subcontinente com todas as forças.

O sentimento de vingança, aliado com as preocupações provindas da crise econômica, tomou conta dos americanos, e a eleição do antigo governador da Califórnia já estava garantida. De fato, na prática ele já havia se tornado o presidente com o discurso de 7 de janeiro.

Uma extensa campanha militar, cujo alvo principal era o Irã, se iniciou em meados de 2013. O que os americanos não contavam era com o repúdio, dessa vez muito mais intenso, por parte da ONU e mais especificamente da China, que acusavam os EUA diretamente de querer ocupar os campos de petróleo de todo o Oriente Médio, sejam eles de países aliados, que “hospedavam” as tropas, ou de inimigos.

Mas a maior surpresa veio da resistência dos países islâmicos. Dezenas de milhares de soldados americanos morreram em poucos meses. Os Estados Unidos passaram a suspeitar do suporte da China aos países resistentes.

Em 2016, quando a contagem de mortos passava das centenas de milhares de militares americanos e de milhões de civis asiáticos, o governo americano, impaciente, tomou a decisão crucial: usar armas nucleares. Alvos supostamente estratégicos foram aniquilados. A sede de sangue das massas americanas, pelo menos naquele momento, foi saciada.

Porém, a resposta veio na mesma moeda. As “nações terroristas” detonaram armas nucleares nas capitais ocupadas, principalmente naquelas que seriam pontos-chave para a extração do petróleo do Oriente Médio, como o Kwait. Os Estados Unidos imediatamente acusaram a China de fornecer essas armas aos resistentes.

A guerra nuclear devastou o subcontinente do Oriente-Médio. Ao todo, foram 29 armas atômicas detonadas, sendo 21 por parte dos americanos. Em meados de 2019, a radiação acumulada já chegava a afetar uma parte da Índia. Estima-se que 90 milhões de pessoas tenham morrido no conflito, quando os Estados Unidos retiraram as tropas definitivamente da região, deixando para trás apenas um deserto estéril.

A década de 2020 apresentou os primeiros sinais das mudanças climáticas mundiais, iniciadas pelo desenvolvimento industrial dos séculos 19 e 20 e catalisadas pela guerra nuclear no Oriente Médio. As áreas de desertificação, como o centro dos EUA, o nordeste brasileiro e o norte da África cresceram e se tornaram ainda mais quentes e secas, enquanto as temperaturas na Europa caíram surpreendentemente. Os recordes de frio e calor foram batidos sucessivamente.

Enquanto isso, a crise do petróleo se agravou. O Oriente Médio havia se tornado inexplorável, e o Brasil, que possuía a segunda maior reserva do mundo do precioso combustível, não tinha capacidade para extraí-lo de modo eficiente. Mas justamente por essas razões, as atenções globais se voltaram ao país neutro.

No final da década, mais precisamente a partir de 2028, uma empresa privada surpreenderia o mundo com um crescimento sem igual. A Corporação Axis, centrada em desenvolvimentos tecnológicos em geral (mas com uma ampla gama de outras atividades), conquistaria o globo em três diferentes “frentes”:

A primeira, foi o desenvolvimento de micro-reatores nucleares funcionais, que poderiam ser usados para prédios, residências, e até mesmo veículos de grande porte. Num mundo com petróleo cada vez mais raro e por conseqüencia caro, a nova tecnologia foi extremamente bem-recebida, gerando altos dividendos para a empresa.

A segunda foi a criação da Ultranet, uma interface intuitiva que representava a própria Terra com fidelidade, combinando ao mesmo tempo vários serviços (algo parecido foi feito no início do século com o sistema chamado Second Life), que rapidamente substituiu a internet na navegação pela rede. O slogan do serviço era “A realidade está obsoleta”. De fato, a Ultranet apresentava um nível de detalhamento maior, no mundo digital, do que o que podia ser captado pelos olhos humanos, no mundo real.

E a terceira e última, no início de 2032, foi a produção e venda dos primeiros robôs domésticos, tecnologia desenvolvida pela filial da empresa no Japão. Além da qualidade excepcional, a reputação construída pela empresa naqueles quatro anos foi altamente responsável pela venda dos mesmos, supostamente em absoluto seguros por um sistema que colocava, acima de tudo, as três leis da robótica, concebidas por Isaac Asimov.

[continua]

sábado, 10 de maio de 2008

Sobre o uso de dinossauros no campo de batalha (parte 2)

Saurópodes

O uso dos saurópodes no campo de batalha se justifica por dois motivos: a posição privilegiada que eles dão aos arqueiros e a invasão de fortalezas e áreas protegidas em geral.

No caso dos arqueiros, principalmente aqueles que usam arcos de longo alcance, estes se beneficiam pois podem obter, caso se posicionem na cabeça desses dinossauros, a melhor posição para efetuar o disparo de suas flechas. Essa tática é especialmente útil quando trata-se de eliminar um ou mais soldados trodontes que estejam de sentinela. Um técnica constantemente empregada por esses soldados consiste em se esconder, conjuntamente com o saurópode, atrás de alguma obstrução (na maior parte dos casos do próprio terreno) que impeça a visão do alvo. Ao dinossauro é então dada a ordem, pelo montador, para erguer apenas cabeça (o pescoço longo do animal permite alcança uma altura de até dez metros). O arqueiro terá então uma posição excepcional para efetuar o disparo.
Em meio à batalha, os arqueiros também podem fazer bom uso da posição privilegiada em cima da cabeça do dinossauro, principalmente a fim de atingir seteiras nas muralhas inimigas com mais exatidão.

Mas talvez o uso mais extraordinário dessas criaturas seja na invasão de fortalezas. Mesmo muralhas com 15 metros de altura não podem impedir o avanço de um exército que esteja empregando alguns Brachiosaurus, por exemplo, afinal os soldados trodontes facilmente escalarão pelo dorso do dinossauro, se este for corretamente posicionado. Além disso, esses animais podem transportar facilmente tropas de elite inteiras, com algumas dezenas de soldados, pelo campo de batalha.

O uso desses dinossauros, entretanto, é o mais caro entre todos, devido às dificuldades na criação e também à armadura que deve ser empregada para protege-los, principalmente nas pernas, pois se estas forem seriamente golpeadas a criatura virá abaixo sem poder mais se levantar, e no pescoço, onde uma simples lança pode significar a morte. Além da armadura é importante cercar este dinossauro com outros dinossauros para protege-lo, como os anquilossauros ou ceratopsídeos.

A armadura, vale lembrar, deve ser especialmente produzida por ferreiros especializados, pois além de proteger, deve garantir que os soldados trodontes possam se apoiar e/ou andar sobre ela sem dificuldades.

Os saurópodes mais empregados no campo de batalha são:
- O Brachiosaurus, a espécie maior, com até 23 metros de comprimento e por volta de 80 toneladas de peso;
- O Shunosaurus, uma espécie menor (até 14 metros de comprimento e 9 toneladas de peso), porém com o diferencial de ter uma clava óssea na cauda, melhorando sua capacidade de defesa;
- O Diplodocus, uma das espécies mais compridas com cerca de 27 metros, e não tão pesada, cerca de 20 toneladas; a cauda deste dinossauro pode ser utilizada como chicote a fim de abater outras bestas.

Galimimos

O grupo dos galimimos é constituído pelas montarias individuais de uso geral no campo de batalha. Apesar de serem capazes de transportar apenas um soldado, as espécies mais rápidas podem ultrapassar os 60 km/h. Ideal para soldados portando lanças longas.

Os tipos mais usadas como montaria de combate são:
- O Galimimus, de 3 a 4 metros de comprimento, e que alcança os 50 km/h;
- O Dromiceiomimus, também de 3 a 4 metros de comprimento, mas que alcança até 60km/h.

Pterossauros

Os répteis voadores constituintes do grupo dos pterossauros são difíceis de se adestrar e por isso caros, mas o uso deles pode ter importância estratégica em certas batalhas.

Apesar do tamanho, essas criaturas são muito leves (o maior deles não ultrapassa os 100 kg de peso), o que justamente lhes garante a capacidade de voar. Mas isso torna também inviável o transporte de mesmo um único soldado.

O uso deles limita-se, então, ao arremessar de pedras ou mesmo grandes frascos com óleo fervente de alturas elevadas sobre as tropas inimigas. Dada a dificuldade dessas tarefas explica-se parte da dificuldade em se adestrar essas bestas para o uso em combate. Além disso, deve ser considerada a vulnerabilidade delas, afinal não se pode usar nenhuma armadura devido ao peso extra, impossível de ser carregado.

Os principais pterossauros empregados são:
- O Pteranodon, com 8 metros de envergadura das asas e cerca de 20 kg de peso; algumas linhagens desses animais são capazes de carregar por volta de 5 kg de peso;
- O Quetzalcoatlus, com até 14 metros de envergadura das asas (sendo a maior espécie) e cerca de 100 kg de peso; o peso máximo que já foi observado uma criatura dessas carregar foi de 20 kg.

Apêndice – O montador

O montador de dinossauros merece destaque especial. Ele será constantemente visado no campo de batalha pelos arqueiros inimigos, afinal é o único capaz de controlar sua criatura, e sem ele, ela se torna inútil.
Os montadores devem sempre usar armadura completa. Além disso, se possível, cada dinossauro deve ter um montador reserva, que permanece deitado e protegido sobre o dorso do animal e só se manifesta caso o montador original seja abatido.

domingo, 6 de abril de 2008

Defina "vida". Justifique sua resposta.

A nanotecnologia promete hoje incríveis avanços tecnológicos para o futuro. Sem entrar muito nessa ciência, ela consiste da manipulação dos átomos, os “blocos primordiais” de toda a matéria existente, na construção de novos materiais, componentes, e até mesmo máquinas em um nível nanométrico (“nano” é o prefixo usado para denominar um bilionésimo – um nanômetro, ou simplesmente nm, seria igual a 0,000000001 m).

Ainda é uma ciência em seus primórdios, mas assim como com a viagem no tempo, é interessante discutir as possibilidades que nela residem.

Pois bem, analisemos um dos principais focos divulgados pelos cientistas a respeito dessa tecnologia: a construção de nano-robôs, ou seja, robôs em escala microscópica. Esses robôs seriam capazes de atuar dentro do nosso organismo, podendo, por exemplo, se atuassem no sangue, levar oxigênio até nossas células de uma maneira muito eficaz – teoricamente, todo o nosso sangue poderia ser substituído por alguns litros contendo trilhões desses nano-robôs, criando seres humanos surpreendentemente mais vigorosos.

Mas o foco dessa discussão é outra. Primeiro vamos imaginar um desses nano-robôs, só que com outros propósitos. Imagine eles com sensores, suponha a cor cinza que sempre é ligada às máquinas, imagine garras para o movimento e/ou a manipulação em torno de seus “corpos” e pense em qualquer programação interna e capacitação que eles poderiam ter, podendo executar inúmeras tarefas.

Agora, vamos supor que nossa tecnologia, depois de um tempo de uso e experimentação desses nano-robôs, tenha avançado a tal ponto que dentre as tarefas que possam ser executadas por eles, encontra-se a de criar uma cópia exata deles mesmos, a partir da matéria existente no ambiente – átomos de carbono, por exemplo. Criar uma cópia de si mesmo consiste em se replicar. A princípio, podemos considerar muito útil uma programação e uma capacitação desse tipo – afinal, criar algumas dezenas de trilhões de nano-robôs não parece tarefa fácil, considerando o exemplo do uso deles no nosso organismo. Mas você consegue ver o perigo global que apenas um nano-robô desse modelo representaria?

O primeiro nano-robô desse tipo que fosse criado, se não controlado, e se qualquer tipo de material pudesse ser usado por ele na replicação, iniciaria um processo que acabaria por consumir toda a matéria da Terra, transformando-a apenas em nano-robôs. Um exagero? Não se considerarmos a progressão exponencial no crescimento do número de nano-robôs. Um cria outro, que criam dois, que criam 4, que criam 8 e assim por diante. Supondo um tempo razoável de replicação de um dia, teríamos 2¹º = 1024 robôs em dez dias, em 20 dias seriam aproximadamente um milhão, e em 30 dias um bilhão. Em alguns meses seria o fim da Terra como conhecemos, dominada por uma gosma cinzenta de nano-robôs.

Mas por mais interessante e apocalíptico que isso pareça, não é o foco deste texto. Imaginemos que os cientistas sabiamente, ou mesmo por impossibilidade, criem nano-robôs que se repliquem apenas usando certos certos tipos de matéria que pudessem encontrar. Vamos pensar que sejam espécies de matéria não tão raras, mas também não tão comuns em nosso planeta a ponto de que buracos sejam criados por aí por esses nano-robôs em busca de replicação.

Um nano-robô que busca certos tipos de matéria para criar cópias exatas de si mesmo. Podemos notar nitidamente que há uma forte semelhança com qualquer forma de vida existente, que busca, mais que tudo, se alimentar, crescer e então se reproduzir.

Mas não pára por aí. Imaginemos que, na programação desse nano-robô, ele seja instruído a criar de maneira alternada uma cópia idêntica de si mesmo, e uma cópia ligeiramente diferente de si mesmo. Não uma diferença pré-programada, mas algo totalmente aleatório.

Teríamos então simulado o mecanismo da mutação com propósitos evolutivos. A geração aleatória criaria uma imensidão de nano-robôs não funcionais (devido à aleatoriedade do processo de criação de indivíduos ligeiramente diferentes), uma outra imensidão de nano-robôs idênticos ao “nano-robô primordial” e, o mais importante, um indivíduo que seria melhor que o seu criador – seja em velocidade de replicação, seja em mobilidade, seja em capacidade de encontrar os átomos que lhe são necessários, entre outros. Esse indivíduo com o tempo substituiria a “espécie” de seu criador, simplesmente por competição. Tal qual na natureza.

Agora, se não é o bastante, imagine que essa programação dos nano-robôs, que permite a criação aleatória, também crie alterações que eventualmente façam surgir a associação de nano-robôs, diferentes ou iguais, em organismos maiores. Novamente surge a semelhança com a natureza.

Finalmente, imagine a seguinte situação: um extraterrestre visita dois planetas: a Terra, e outro onde existem os nano-robôs no último estágio que discutimos. De quantas formas diferentes de vida estamos falando?

Por enquanto, eu diria três.

sábado, 29 de março de 2008

Não posso voltar no tempo e impedir a postagem desse post, senão eu morro

Certa vez, enquanto bolava histórias pro RPG de Dungeons & Dragons que eu mestro, decidi colocar uma arma futurista, um fuzil laser pra ser mais específico, numa de minhas aventuras. Simplesmente achei que seria interessante colocar uma arma dessas num cenário medieval, e que isso certamente entreteria os jogadores. A solução que encontrei pra colocar aquela arma numa época diferente foi simples, uma viagem no tempo. Só que, lógico, eu teria que pensar em como funcionariam as viagens no tempo no meu mundo.

Quem se interessa pelo assunto, sabe que a viagem no tempo pode ser trabalhada de diferentes maneiras. Por exemplo, no filme De Volta para o Futuro, os personagens que viajam no tempo provocam alterações que criam novas linhas do tempo. O filme é divertido, claro, mas alguns pontos são falhos: certa hora, o protagonista (Marty, se não me engano) olha uma foto de seu túmulo no futuro, e quando faz uma alteração no passado, esse túmulo some, ficando só a foto do gramado. Porque alguém em sã consciência tiraria uma foto da grama da onde deveria estar o túmulo? Além disso, Marty quando volta ao futuro, encontra tudo diferente, sendo que ele não mudou nada. Fora todo o problema de se criar um paradoxo e “destruir o universo”.

Eu tentei bolar uma explicação diferente para como a viagem no tempo funcionaria nas minhas aventuras. Essa explicação parte da idéia de que a linha do tempo é única e que paradoxos não podem existir – de maneira alguma. As viagens no tempo podem até existir, mas um paradoxo não. E como fazer para nunca exista um paradoxo? Simples: o próprio universo se comportaria de uma maneira que impedisse que paradoxos fossem criados ao longo de sua história. Mesmo que isso, alguma vez, parecesse altamente improvável.

Por exemplo, suponhamos que você invente uma máquina do tempo e volte 50 anos para o passado e tente matar seu próprio avô. Você deixaria de existir, afinal seu avô não geraria seu pai ou sua mãe, que não geraria você. E como você teria feito essa viagem para matar seu próprio avô? Seria criado um paradoxo. Para que isso não acontecesse, o universo providenciaria que alguma coisa acontecesse com você antes que consumasse o homicídio. Sua máquina do tempo poderia não funcionar. Ou você poderia nunca encontrar seu avô no passado. Ou no último momento, você poderia simplesmente desistir!

Isso tudo parece muito forçado? Uma força quase divina guiando seus atos para que paradoxos não fossem criados?

Pense no andamento da história. Da sua história ou mesmo da de toda a humanidade. Nossa existência é repleta de possibilidades. Você pode parar de ler esse texto ou continuar a lê-lo até o final. Mas a questão é que você vai fazer apenas uma dessas coisas no futuro. A linha do tempo, pelo menos aquela em que nós vamos viver, é apenas uma. No futuro, todas as nossas decisões já foram tomadas, e nossa sorte já foi lançada.

Agora imagine o andamento de diferentes linhas do tempo possíveis como uma árvore. Tudo começa no Big Bang, que seria o tronco da árvore. Ao longo de toda a história, para cada possibilidade, temos um galho, para cada possibilidade derivada desta, uma ramificação desse galho, e assim por diante, até o topo da árvore, onde estamos, e que continua crescendo, cada vez com novas possibilidades.

Os “caminhos” possíveis nesta árvore que possuam paradoxos, simplesmente não vão existir, pois um paradoxo não pode existir. O que nos sobra? Apenas os galhos onde não há paradoxos. Mesmo que coisas absurdamente improváveis aconteçam numa linha do tempo, se elas forem minimamente possíveis e impedirem a existência de um paradoxo, haverá uma linha do tempo onde essas coisas estarão presentes. Por exemplo, você poderia ganhar na loteria e desistir de viajar no tempo para matar seu avô, simplesmente ficando para aproveitar sua fortuna.

Além disso, vale lembrar que a linha do tempo (pelo menos a que estamos/vamos viver!) é apenas uma. Assim, ainda no caso do assassinato do avô, se a viagem no tempo for efetuada, ela fará parte da linha do tempo, mesmo que ela não cause nenhuma mudança significativa (a morte do avô por exemplo).

Agora, como eu usei isso no RPG. O viajante no tempo, no caso, foi um astronauta vindo de milhares de anos à frente. Ele e sua equipe viajavam à velocidade da luz numa nave espacial, quando acabaram caindo na época “do jogo” (não me preocupei muito em explicar a viagem no tempo em si – apenas como ela funcionava no universo que eu criei; de fato, viajar na velocidade da luz é uma tarefa e tanto, visto que sua massa cresce exponencialmente). Mais precisamente, eles caíram (agora literalmente) numa geleira, e estavam sem combustível. Eles desejam encontrar combustível para a nave e voltar para um ponto no tempo um ano antes de terem partido – encontrando então seus “eus” do futuro – apenas para experimentar como o tempo se comportava. O destino, claro, “tratou” de impedir essa viagem de volta para o futuro – todos os astronautas menos um foram mortos durante a busca pelo combustível, mesmo estando armados com fuzis de tecnologia de ponta, por “lobos das estepes” (um monstro de D&D). O último astronauta chegou a interagir com os jogadores e até mesmo a explicar o intento dele e de seus companheiros – mas acabou sendo morto por um NPC que estava junto do grupo, que apenas desejava roubar sua poderosa arma.

Dessa narrativa percebe-se que, se os astronautas queriam criar um paradoxo (na linha do tempo eles não tinham se encontrado consigo mesmos um ano antes de partir!), alguma coisa teria que impedi-los de faze-lo. E essa coisa poderia ser uma simples desistência , ou a morte de todos eles, que foi o que aconteceu.

Bom, ao bolar a aventura, fiquei empolgado não só com ela, mas como essa idéia poderia explicar a existência de viagens no tempo de uma maneira simples e genial.

Mais tarde acabei descobrindo, porém, que eu não havia sido o primeiro a pensar nessa explicação:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Viagem_no_tempo
Leia a parte do princípio de auto-consistência Novikov, explica justamente essa teoria, apenas não detalha as linhas do tempo teóricas para cada possibilidade em que eu pensei.

Fora isso, fiquei muito surpreso (e agora estou na expectativa) quando passei a assistir a quarta temporada de LOST. É possível que esta teoria esteja sendo utilizada quando foi incluído o conceito de viagem no tempo na série, e mais, pode ser que isso seja a explicação para muitas coisas. Basta pensar, LOST é a terra das coisas improváveis. Sem querer dar muitos spoilers, um personagem tenta se matar jogando um carro contra um muro, e “milagrosamente sobrevive”, segundo a enfermeira que posteriormente cuida dele. Tenta de novo com uma arma totalmente carregada, e ela simplesmente falha! “A Ilha não vai deixar você se matar”, lhe diz outro personagem. Mesmo que o primeiro personagem tentasse atirar várias vezes na cabeça com a arma, se ele fosse vital para a inexistência de um paradoxo (posteriormente viajando no tempo para o passado e definindo acontecimentos essenciais no começo da série, por exemplo), a arma “trataria” de falhar todas as vezes.

Bem, para concluir, devo dizer que as viagens no tempo estão muito longe da nossa realidade atualmente. Mas, pelo menos, espero que vocês tenham apreciado o quanto elas podem ser plausíveis na ficção com essa teoria, assim como eu fiquei (apesar de que eu ficaria bem mais animado se continuasse a pensar que tinha sido uma idéia original, heheh).

Agora se você não gostou da teoria nem do meu texto, te aconselho inventar uma máquina do tempo, voltar duas horas antes da postagem e me matar. Ou pelo menos tentar, hahahah.